O INVERNO - Lagostins Judeus



Preciso de uma mulher-a-dias

Sabes disso quando estendes roupa às quatro e vinte e cinco da madrugada.
Até podia ser ao contrário, mas não.

Preciso de uma mulher-a-dias e de saber o que querem dizer as minhas notas. Auxiliares de memória para gente doida com mania de artista, viciada em conceitos.
- Contemplar, absorver, criar, inventar, redefinir e marcar.

Mas porque raio escrevi eu Lagostins Judeus?

Mesmo quando estou indolente, depressivo ou derrotado nunca desligo. Não consigo. Os demónios saltam-me no peito a cantar... Coisas das causas... E por algum motivo faz-me sentido.

Sabes disto quando gostas de os ouvir cantar até ficares exausto. Até podia ser ao contrário, mas não.

Lagostins Judeus?
Uma piada de mau gosto sobre a circuncisão, ou uma metáfora anti-semita. Eles que põem em risco todas as outras espécies endémicas.
Rejeito a segunda.
Não faz o meu tipo e eu adoro os meus amigos Judeus. Adoro fazer a minha piada a meio do debate, "Cristão Novo, tenho três palavras para acalmar a tua insolência: Marquês de Pombal."

Por outro lado, treinar Lagostins para excisar prepúcios parece-me extremamente difícil.

Sabes disso porque pouco te faz sentido mesmo quando te sentes. Até podia ser ao contrário, mas não.

Talvez esteja apenas debilitado. Tenho o sistema imunitário em baixo.
São demasiadas imagens.
Gentes estranhas a fumar ao pé de bebés. Forradas a ganga. Horas num estofador para combinar ganga com ganga, por cima de ganga.
Modas mitológicas. Pessoas vestidas com animais, ou como animais, ou imitando animais. Colete de pêlo, blusa tigresa e calças reptícias.
Tudo falso. Até a atitude.
Taxidermia em movimento.
Taxidermia cerebral.
As mais profundas fantasias em voz alta a todo o instante. Sem filtro e sem futuro. Para me testar, para me converter e para me atormentar.
Música vampiresca, minimalista e de série.
Amanhã acordas com uma narina entupida e uma dor de cabeça indigna.

Sabes disso quando ela arrancou as cuecas e ofereceu-se na tua boca. Até podia ser ao contrário, mas não.
Era só um pesadelo. Um trauma mais. Um toque malandro no jogo, só para te lembrares que estás dorido.
Sabes disso porque tens os lençóis rasgados e não te lembras de nada. Mais... Sabes que não te queres lembrar.

Vou experimentar fazer os tratamentos até ao fim. Ignorar as mensagens e as repetições. Resoluções para melhor decifrar o que o vento frio te esclarece. Já não. Nem ele. 
Também ele dormente me questiona confuso:
- Mas que raio queres dizer com isto dos Lagostins Judeus?
- Não sei. Mas que estupidez. Estou a ficar fora de controle. Vou-me entregar. Rendo-me à genética e à circunstancia. Vou assumir...

Quando viro a página leio.
"Coisas perigosas para fazer nú."

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Dinosaur Love by Harry Baker

O que é ser rude?

A Dieta - 1 - Abotoar é um verbo sério