quarta-feira, fevereiro 25, 2015

O INVERNO - Visitas



O Inverno é decadente.
Pelo menos o que eu conheço.
O boreal.
O que está sempre irritado e a irritar toda a gente, só porque tem de esperar pela Primavera. É um fanfarrão.
Nitidamente é a estação do ano com maiores problemas de autoestima.  

O Inverno insiste em esconder as pessoas. Em lhes mudar a cara.
Gosta de as tornar mais feias. Adora o desconforto. O desconsolo. O desalento.
E adora ser chato.

O Inverno só pode parecer bonito quanto todos os restantes estão piores.

É por estas e por outras que muitas pessoas evitam sair no Inverno. Não se sentem à vontade.
- Que se lixe. Vou hibernar. Acordo um bocadinho no Carnaval e depois "pufa". Volto a adormecer até ouvir um passarinho.
(entenda-se que segundo os parâmetros actuais, "ouvir um passarinho" significa, invejar alguém, depois de ver uma foto com algum sol numa qualquer rede social.)

Adiante.

Está aberta a época de "paneleirada" do costume: "Eu hoje não vou sair."
Porque está a chover. Porque está frio. Porque está engripado. Porque a namorada está engripada. Porque os filhos estão engripados. Porque os pais estão engripados. Porque o gato espirrou. Porque é tempo de passar os fins-de-semana em casa a ouvir chover e a ver filmes dos beras. Porque se está mais gordo. Porque já saiu antes, entretanto trocou para a roupa de casa e dá demasiado trabalho equipar-se para a intempérie...
- Mas se quiseres aparece aí. Tenho a lareira acesa e está quentinho cá em casa.
Tradução: Apanha tu frio.

Generalizou-se que só conhecemos o total esplendor da fealdade alheia, quando a vemos acordar. É nesse hediondo espectáculo que tudo se sabe.
Nada está mais longe da verdade.

Onde nós temos a percepção total do próximo - plasticamente e não só - no momento em que visitamos alguém no Inverno.

Devo confessar que este tema me causa algum assombro. Provavelmente terei de lidar com este terror durante longas noites de insónia.
E por onde começar...

Talvez pelo fracturante momento da chegada.
Uma pessoa está vestida decentemente e a outra parece um mendigo. Sinceramente não sei se lhe devo estender a mão ou lhe disponibilizar uns trocos para uma carcaça.
Durante o choque os meus pés esfregam com força um tapete castanho. Como se a violência aplicada naquele objecto expurgasse todos os males do mundo.
E ouço:
- Põe-te à vontade. Tira o casaco. Tens ali o sítio dos chapéus de chuva.
Sim porque os chapéus de chuva têm um sítio especial, geralmente a um canto, perto de um bengaleiro empoeirado, onde convivem uns com os outros enquanto escorrem, ou esperam... e eles esperam bastante.
Tiro a outra luva, o gorro, o cachecol e o casaco, deixando tudo em "ponto de fuga". É um reflexo.
- Senta-te. Queres alguma coisa?
- Não obrigado. Estive a beber chá há pouco. Não tenho vontade de nada.
E é quando o meu olhar atravessa a sala, que reparo no ser perigoso que se dispõe no sofá em posição Cleóptera.
Depois de sacudir os chinelos "apantufados à velho", recolhe-se no sofá, cobrindo-se da cintura para baixo com uma manta de cor duvidosa.
Um hino ao borboto.
No tronco exibe uma armadura esquisita - dizem que se chama robe - e ficam a sorrir para uma pessoa com um ar tresloucado.
Na minha cabeça um único refrão: Síndroma da cabana!
- Tens a certeza que não queres nada?

Muita atenção neste momento!
Estamos frente a frente com a fera.
Nada de movimentos bruscos.
Uma simples hesitação e podemos causar desconforto no hibernante. Correr o risco de o colocar em contacto com uma temperatura ligeiramente mais baixa, pode ser fatal.

- Não não. Deixa estar... Que estás a ver na televisão?
É importante distrai-los. Mudar o foco ao bicho.
- Olha nem sei. Tenho estado aqui toda a tarde a ver filmes de merda. Ontem vi a 2ª, 3ª e 4ª série daquela série... Porra. Aquela dos reis e das brigas.
Perda de memória, seguido de irritação. Mau gosto. Sinais evidentes de desequilbrio.
- Pois já sei, pois...
- Então e tu? Que tens feito?
Tenho vivido.
Eu optei por apanhar frio mas posso parecer-me com uma pessoa.
- Nada de especial - minto descaradamente.
- Pois. Está muito frio não é! Com o tempo assim não apetece.
Ninguém sabe o que é suposto apetecer, mas aceno com a cabeça, como se os nove graus centígrados que estão na rua, fossem os quarenta negativos da Sibéria.
- Aqui está-se bem!
Até dava para estar em tronco nu!
- Aqui está... Quentinho - dizem com aquele ar insano - Também tenho o desumidificador a funcionar há 8 dias.

O desumidificador, a lareira, o recuperador de calor, o aquecedor a óleo, o radiador, o radiador da casa de banho - porque Deus nos livre e guarde, de sentir uma brisa fria na ponta da pila durante dois segundos, enquanto pomos a toalha à volta do corpo.
"Tem de ser meu. A casa de banho está muita fria. Eu ligo aquilo sempre que lá vou... Quando vou cagar e tudo".
(Agora a situação sonoramente)
Caaaaaaaaajjjjjjjjjjjjjjjjjjjuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuhhhhhhhhhhh
Ploc
uhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
Ploc ploc
uhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
- Ehhhhhhh... Ahhh. Pfff
uhhhhhhhhhhhhhh
rehkkk rehkkk
- Autoclismo a descarregar.
uuuuuuuhhhh
Continuando.
A chaleira eléctrica, o cobertor eléctrico, o saco de água quente dos chineses, também ele... eléctrico.
(Isto quando não existe um ar condicionado envolvido. Isso já se sabe. Quando existe um comando a pilhas com números, uma pessoa muda de hemisfério. Brasil no Inverno. Groenlândia no Verão. É sempre "a bombar".)

Tudo para estar... Quentinho.

(Continua)

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