O INVERNO - Elas evangelizam



Este Inverno fartam-se de bater ao portão.

Ao meu lado está um cão muito sério e atento. Pronto para tudo. Afinal de contas, é gente que não é cá da terra e com a gandinagem que anda por ai, há que ter prudência.

Andam ai a evangelizar.
Querem me salvar. Dar-me "uma palavrinha".

Costumam vir aos pares, de papel colorido nas mãos, cheios de fé alambicada e retórica fraquinha.
Trazem sempre o mesmo sorriso de missão, contido e cordial, enquanto me avaliam o espirito.
O pitch é rapido e inconsequente.
Agradeço e despeço-me educadamente, rebatendo a insistência ao desejar um resto de bom dia aos caminhantes.

Ou seja.
É sempre a mesma cantiga.

Mas como este inverno fartam-se de bater ao portão, cheguei à surpresa de encontrar quatro moças à entrada dos meus domínios.

Quatro.

Quatro raparigas novas.
Quatro miúdas sorridentes e felizes. Fervorosas missionárias, cheias de calor divino no peito.
Todas de saia.
Todas de botas.
Todas de cabelo apanhado e com aquele ar de "professora safada".

- Olá, boa tarde - saudou a mais alta de forma arrastada.

Mas que camada de dourados que para aqui vai. Pechisbeque do bom. Sim senhor.

- Boa tarde - respondi com a minha melhor voz.

- Boa tarde - cumprimentaram as restantes cheias de dentes.

Está aqui um rebanho muito arranjadinho. É só unhas e madeixas. Glória Glória. Aleluia.

E a lider, liderou.
Inclinando a cabecita cheia de enfeites para o lado inquiriu:
- Então bem disposto? Como está?
- Estou bem muito obrigado.
- Já vi que sim - gracejou a loura da outra ponta do grupo, enquanto as outras deixam escapar um risinho maroto.

Que engraçado! Ficam logo com legendas. Basta terem uma amiguinha ao pé.

- Como disse? - Perguntei, fazendo-me despercebido.

Com um olhar fulminante, tipo 4 da manhã, respondeu-me desafiante.

- Já vi que está bem.

Deve ser do meu ar cristão. É da barba.

- Não estamos a incomodar? - certifica-se simpaticamente uma terceira com mais peito. Interrompendo o momento.

Ó Diabo. Isto aparece de todos os lados...

- Não, não... Diga.

E a lider, liderou.
- Nós estamos aqui para lhe dar uma palavrinha sobre "o Senhor". Sobre Cristo. Não sei se é crente?

Ah... Que pena. E eu cheio de pecado. Com a imaginação a correr solta, pelos quatro corpos destas santas almas.
Mudaram de estratégia de marketing, e eu estou tão longe da salvação.
Era um recorde.
O verdadeiro "Fim do Mundo".
Ora então vamos lá ouvir a cantiga do costume.

Blá blá, blá blá, blá blá, blá blá, blá blá, blá blá...

A loura toca-me no braço, fixando o olhar.
Com um sorriso pergunta:
- Desculpe... Mas... Não se lembra de mim?

Luz.
Agora sim.
Coincidencia milagrosa.

Um olhar fulminante, um sorriso de volta, uma conversa sobre a moda do gin, um top que explicava "god made me this way", um parque de estacionamento enlameado, uma gritaria das boas, um par de cuecas de renda vermelhas para o lixo, e uma frase que me sai da boca como um raio:
- Ainda tenho ali no carro os teus sapatos pretos.

É obvio que o nome dela é Maria.




Comentários

Mensagens populares deste blogue

Dinosaur Love by Harry Baker

O que é ser rude?

A Dieta - 1 - Abotoar é um verbo sério