O Diário - V - Donzelas Cosmopolitas

Eu nasci e cresci numa casa cheia de vida.
E nessa casa havia tudo.
Nunca me faltou nada. Nem a felicidade.

Como era lindo viver mesmo no meio de Lisboa.


Nessa casa existia um santuário. Um sitio mágico cheio de histórias e momentos únicos que nunca esquecerei.

Na parede do meu quarto podiam-se ler os seguintes versos.



Lisbon Revisited (1923)
NÃO: Não quero nada. 
Já disse que não quero nada. 

Não me venham com conclusões! 
A única conclusão é morrer. 

Não me tragam estéticas! 
Não me falem em moral! 

Tirem-me daqui a metafísica! 
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas 
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) — 
Das ciências, das artes, da civilização moderna! 

Que mal fiz eu aos deuses todos? 

Se têm a verdade, guardem-na! 

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica. 
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo. 
Com todo o direito a sê-lo, ouviram? 

Não me macem, por amor de Deus! 

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável? 
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa? 
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade. 
Assim, como sou, tenham paciência! 
Vão para o diabo sem mim, 
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo! 
Para que havemos de ir juntos? 

Não me peguem no braço! 
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho. 
Já disse que sou sozinho! 
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia! 

Ó céu azul — o mesmo da minha infância — 
Eterna verdade vazia e perfeita! 
Ó macio Tejo ancestral e mudo, 
Pequena verdade onde o céu se reflete! 
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje! 
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta. 

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo... 
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho! 

Álvaro de Campos - heterónimo de Fernando Pessoa


Estes versos.

Mesmo ao pé da minha enorme cama.
Mesmo no meio de toda a vida.

É verdade.

Sou de Lisboa.
Sou de arrancar a pé direito às luzes que pintam a cidade. Passar em todo o lado. Subir, descer e subir novamente.
Sou de estar na rua. Ou em casa de alguém. Ou no meu perfeito palácio, inventando.
Sou neto da Tia Alice das Batatas.
Fui aluno no Lyceu Camões.
Nasci e cresci num bairro. Com gente por todo o lado e tabernas a cada esquina. Numa rua onde todos os números das portas são pares, porque do outro lado da estrada existe um mercado.
Mesmo no meio de Lisboa.

Ah e como era lindo viver mesmo no meio de Lisboa...


Se fechar os olhos, ainda vos consigo contar tudo sobre os infinitos recantos da cidade magnifica.
Ou quase...

Quase, porque uma vida não chega para dominar tamanha magnitude.

Quase porque agora não quero saber.


"A gente chateia-se e o namoro acaba!"

E acabámos.

Eu e Lisboa só nos reencontramos por conveniência.


Já não a reconheço.

Tornou-se numa reles rameira. Vendida aos pedaços e aos parolos, por meia dúzia de tostões.
Deitou-se com falsos impérios e expulsou a sua alma.
(E agora vou escrever directamente à menina para ver se ela percebe de uma vez.)

"Faltam-te os lisboetas ó minha puta de merda. Burra! Parece que é atrasada. Mas o que és tu sem os que te amam?"


Há uns tempos fartei-me. Deixei de sorrir. Deixei de ser feliz.

Tudo estava vazio.
Cada vez existiam menos luzes.
Uns a pagarem este mundo e o outro. Outros expulsos para os subúrbios. O resto para o estrangeiro.
A nossa mãe deixou-nos ao abandono.
Cada vez apareciam mais campónios gulosos. Uns por voto, outros como carraças.
(Basta ver o fato.)
Outros ocupavam centenas de anos com venenos, artigos de baixa qualidade, vulgaridades e globalização.
Deixei de sorrir.

"E podem espernear e retorquir o que quiserem. A verdade é que a alma de Lisboa está moribunda.

Afundem-se com os vossos comandantes estrangeiros. Que me interessa essa merda.
Caguei."

E desertei.

Vim viver para o campo e passear o cão... sem trela.

Mas estas linhas não são apenas sobre a minha zanga com aquela parva.

Estas linhas são para falar de como os meus amigos, "nados e criados cá" - como diz a canção - se escandalizam com a minha opção.

"O Daniel agora vive no campo!"

(Escusam de estar já a sorrir. Eu adoro-vos - e estou cheio de saudades - mas vocês precisam de "ganhar chaveca"! "Ganhar tacto"! "Ter noção"! Ou seja... atinar.)

Como posso viver numa pequena vila, em pleno ambiente rural, longe da civilização?
Será possível abandonar a sofisticação da capital? Deixar a urbe.
É contranatura.
É anormal.

Estas ideias são constantemente reforçadas nos nossos contactos ocasionais.
"Ainda vives lá? Naquele sitio. Huuuum... Ok, ok, muito bem! Fixe. Não penas em regressar? E está tudo a correr bem? Então quando vieres cá a Lisboa depois apita. Adeus, abraços e beijinhos."
- E aqui entra todo o meu domínio, da "nossa semântica". Vou só traduzir para o resto da malta compreender.
O que me estão realmente a dizer é:
"Ainda andas a brincar ao campo? Naquele sitio com muitas árvores e tractores, cujo o qual me recuso a memorizar o nome. É que estive no estrangeiro muitas vezes e Portugal é demasiado pequeno para mim. Tudo soa ao mesmo... Ok, ok, tu lá sabes! Estás em completo delírio, já percebi. E quando é que essa mania te passa? E trabalho? Não há muito por onde escolher ai na parvalheira. De certeza que não ganhas tanto dinheiro como eu. Vá deixa-te de merdas. Essa pancada há de passar. Adeus. Estás todo comido desse cérebro. Estás aqui estás no Julio de Matos. Este gajo sempre teve a mania que era artista."

Confesso que esta sobranceria diverte-me.


Nem sei se devo começar pela parvoíce ou pela exaltação da ignorância.
Que seja a segunda.
Se entrar num carro agora, estou à porta da minha casa de Lisboa em 45 minutos.
- Aqui entre nós, que ninguém nos lê, demoro menos tempo, do que ir buscar uma querida aos subúrbios.
E o paternalismo.... Como se fosse um acto de falsa rebeldia:

 "É uma fase. Talvez uma crise... Isto dos trinta anos é uma segunda adolescência."
- De facto sou eu que estou horas a ver pornografia na internet. Atenção... Mas só nos intervalos dos joguinhos em rede, enquanto a mulher engorda no sofá a ver séries. Toda amassada entre mantas e almofadas do ikea, a fantasiar com um actor qualquer. Sim porque no Sábado o pessoal do "meu clã" vai fingir que tem vida social e vamos todos jantar fora. Três cervejas depois, já "muita doidões" vamos para uma discoteca de putos "random wtf", só para babar um bocadinho e ver o cú das pitas. 60 e tal euros depois e um taxi vomitado, "é na boa". No máximo às duas e meia estou na cama de "tenda armada", a roçar-me na esposa. "Amor... vamos experimentar coisas novas". É claro que sou recusado porque "sou parvo e já não tenho idade para essas merdas". Alem disso amanhã tenho de me levantar cedo para levar o puto à bola, almoçar com os sogros e entediar-me até à morte.

Sem estereotipar é claro.


Pobre de mim, que nunca tive de pagar uma prestação de uma casa, a uma data de chulos.
Posso ficar simplesmente descansado, enquanto vocês aturaram os saloios exilados, do Bairro Alto ao Cais do Sodré, passando pelos Santos.
"Ai este ano foi tão giro!"
- Foi a mesma merda de sempre. Todos os anos é igual.

Pobre de mim.
Eu que nunca fui público para as vossas mágicas aventuras pelo turismo rural.

Nem quero saber daquele dia de vindima - para bestas urbanas - que foi tão giro.
"Ai levei um vestidinho de verão porque estava calor, bla bla bla bla..."
- Sim já sei. Depois toda a gente te viu as pernas e passaram o dia de volta de ti.  Foi tão giro que devias andar lá um mês a acartar cestos para ver o que é trabalho, ó "miss folha de excel".


Sem estereotipar é claro.

Mas a melhor de sempre foi esta:
"Olha que não é aí do campo que salvas donzelas cosmopolitas!"


Juro que conseguia fazer deste carinhoso aviso um livro.
Se calhar o meu melhor.
(E se tiver tempo, depois de amanhar o terreno e cuidar da minha junta de bois, talvez ainda volte ao tema.)
Mas o poeta - lisboeta como eu - já te respondeu.


Infinitas saudades.
Beijinhos, abraços e por favor... Não sejam mais saloios que os próprios.


Até breve.


LISBON REVISITED (1926)
Nada me prende a nada.
Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja —
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.
Fecharam-me todas as portas abstractas e necessárias.
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver na rua.
Não há na travessa achada número de porta que me deram.
Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta — até essa vida...
Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansaço;
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.
Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;
Não sei que ilhas do Sul impossível aguardam-me náufrago;
Ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.
Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma...
E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos últimos da alma onde memoro sem causa
(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),
Nas estradas e atalhos das florestas longínquas
Onde supus o meu ser,
Fogem desmantelados, últimos restos
Da ilusão final,
Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas coortes por existir, esfaceladas em Deus.
Outra vez te revejo,
Cidade da minha infância pavorosamente perdida...
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...
Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar,
E aqui de novo tornei a voltar?
Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
Uma série de contas-entes ligadas por um fio-memória,
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?
Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.
Outra vez te revejo — Lisboa e Tejo e tudo —,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver...
Outra vez te revejo,
Sombra que passa através de sombras, e brilha
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na água que deixa de se ouvir...
Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim não me revejo!
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim —
Um bocado de ti e de mim!...

Comentários

Anónimo disse…
Até porque no campo descobriste muitas donzelas ;)

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