O Diário - IV - Eu logo vejo

Estou surpreendido comigo mesmo.
Não tenho estado. Mas hoje estou.

Vim para matar saudades.
Para partilhar e fumar uns cigarros largos, refastelado no mundo lexical.

É que à medida que o tempo passa vou perdendo a amargura.
Parece que a maldição desapareceu.
- Deixa-me já bater na madeira que isto nunca fiando. Cuidado aí com os bruxedos.
Mesmo assim.
Sinto-me... bem.

Ora com a enormidade de coisas que se aproximam, estranho a minha tranquilidade.

- E talvez não seja tempo disso?

Coisas de relógios.
Tenho uma data deles e não uso nenhum.

É que tenho um problema com a Actualidade.
Ela aborrece-me e eu não me dou bem com tédios.
Coitada.
Ela não tem a culpa. É o reflexo do que tem de ser. É simplesmente parva.
Demasiado insegura e volátil para ser levada a sério...
Como...
Como uma "smi-virgem".
(Eu sei que o conceito carece de explicação. Preferencialmente extensivo e em formato de tese. Afinal existe todo um universo filosófico no âmago do assunto. Mas adiante. Não "temos tempo". Um dia voltarei à questão, e entretanto talvez a própria deixe de ser virgem completamente.)
Vá.
Simplificando.
Ela é um tipo de presente mais que imperfeito do condicional imperativo.

- Curtiram? Inventei esta cena agora à pressão.

Parece que me habituei a tanta virgindade.

É que viver neste mundo de verdades absolutas da-me vontade de rir.
Adensa-me a presunção - não fosse eu "um gajo maniento"- empurrando a minha alegre arrogância, para troçar das agraciadas epifanias entre a luz e a lucidez.
Estas realidades comovem-me!

Eu sei que não tenho salvação - palavra do Senhor - mas pelo menos construo qualquer coisa.

E isso deixa-me feliz.

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