quinta-feira, maio 22, 2014

O Diário - II - Deixa lá ver se me lembro

Desde a última vez.
Deixa la ver se me lembro.
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5ª Feira:
Sais do computador, fazes o jantar, estás aborrecido.
Fazes listas.
Mensagens, telefonemas, mensagens, telefonemas. Está tudo na mesma, e tu, aborrecido.

O camarada não sai. Hoje não se trabalha mais. Está cansado, mas está sempre.
Não importa.
Arrancas para a guitarra mas nada sai.
Não importa porque é bom na mesma.
Sais de casa, passeias o cão, voltas às dores, até mais não dar.
Voltas para casa.
Mudas a água do balde do cão, voltas às dores, voltas aos comprimidos.
Lês. Fazes listas. Ouves música. Fazes listas. Sorris e adormeces.

6ª Feira:
Acordas, respondes às mensagens e beijinho no cão. Comes qualquer coisa à pressa e vais trabalhar. Páras.
E voltas a trabalhar.
Vens mais cedo porque logo há tropa e tens de abrir o quartel. Vens mais cedo para tratares do cão e de ti.
Fazes um jantar digno e importante. Saboreias em silêncio o vento que se levanta... porque logo há tropa e não podes falhar.
Tomas mais comprimidos.
Ligas a quem tens de ligar, arrancas para onde tens de arrancar e chegas.
Chega-lhe um copo para a coisa acelarar.
Chega-lhe outro porque a conversa está boa. Fumas.
Mensagens.
Atende. Volta a atender.
Faz contas e volta a fazer.
O tempo passa porque tem de vencer.

Mandas 100€ para o lixo dentro de um maço de tabaco vazio.
Vazio como a tua cabeça envenenada.
O tempo passa porque tem de vencer.

Chega-lhe um beijo porque tens saudades. Chega-lhe um abraço porque tens saudades. Dá-lhe uma festa porque te queres dar.
Comes qualquer coisa para não desfalecer.
Chegam.
Amigos, cigarros, copos, mais cigarros, histórias e mais copos.
Levantas a mesa que não se quer levantar. E ali perduras até a tropa desertar.
Vais até casa em passo lunar. Abres a porta com o amigo a arfar. Fazes a festa enquanto te podes baixar.
Vestes qualquer coisa porque o frio veio para ficar.

Apanhas a mentira que queres apanhar.
É o costume que veio para ficar.
Nos olhos alheios vês o que se está a passar e vais passear com quem quer vadiar.
Fumas e pensas e não páras de andar. Sempre a passo até a dor apertar.
Assobias.
Tens saudades, mas não dizes nada.
Há gente que precisa mesmo de descansar.
Mas tens saudades do que ficou por falar.
Fechas o portão, depois a porta, e deitas-te com a canção que queres propagar.

Fazes listas.
Storyboard. Locais. Shots. Pré-produção. Lentes dos amigos. Maquinas. Cartões de memória. Guarda-roupa. Shots. Cor. Luz. Fotografia. Cor. Luz. Fotografia. Cor. Luz. Fotografia. Reflectores. Shots. Aberturas. Guião. Pessoas. Slide. Steady. Cor. Luz. Fotografia.
Mais.
"E um terraço!?
Foda-se!
Alguém que te arranje a merda do terraço.
Um sitio onde só se veja o céu.
Mas será assim tão difícil?"

Fumas. Deixas cair a caneta. Apanhas a caneta e chapas com ela na secretária.
Beijinho no cão. Vestes umas calças porque está frio. Porque tens dores.
"Foda-se os 100€?"
Telefonemas, mensagens e amanhã logo se vê.
Lá te lembraste do que tinhas para lembrar.

Cais na cama e ouves música.
A música nova que vais transformar. A música nova que vais gravar.
Assim que achares a merda do terraço.

Tens saudades, mas não dizes nada.
Há gente que precisa mesmo de descansar.
Adormeces feliz por nada acontecer.
Adormeces feliz por ninguém te mandar a mensagem que não queres ler.

Sábado:
Acordas ao telefone.
Às 8 da manhã lá os vais recuperar. Alivias, suspiras e vens-te deitar.

Acordas ao telefone.
"Sim é claro. Vamos embora."
Do nada ao qualquer coisa é sempre uma aventura.
Ficas feliz por não seres tu a ter a ideia. Pela vontade alheia.
Ignoras as outras mensagens porque está muito calor e muito sol.
Ignoras o que te faz sentir mole.
Pesado. Cansado. Farto de permanecer.
Moído, chocado, sem nada a dizer.

Arrancas pelo vento, até à pior praia.
A praia mais feia que podes visitar, com as pessoas mais feias que poderás encontrar.
E mesmo assim "é fixe"!
Tens dores mas não estás preso. Nem o telefone te chateia. Nem sabes do que se passa no resto do sentimento.
Ris-te, porque dá para rir.

Fome, supermercado, viagem, beiras, bom vinho. Daquele aéreo.
É hora do petisco, com conversa entre dois terraços, acima de tudo o que é campo.
Tomas comprimidos.
Cozinhas.
Coisas simples só por diversão.
Estás aflito com dores mas embebedas-te rapidamente, porque o melhor em estar dormente, é deixar apenas a alma sentir.
A garrafa é tua e trazes reforços nos bolsos. É hora de outras festas.
Chegas num instante às meças, que te fazem pensar duas vezes no Futuro.
Esse papão!

Parabéns meu paneleirão.
Amigos, beijinhos, abraços, e a noite acaba cedo, porque existem criancinhas.
Chegas sem querer saber do que possa acontecer e pões-te a andar.
És sempre tu e ele.
Até à cama chegar.
Quando tudo está a girar.
Quando tens de te levantar.
Só para o mundo acalmar.

Acordas a meio da noite com dores. Zero mensagens. Zero preocupações.
Não há noticias nem decisões.
Nem saudades.
Simplesmente podes voltar a adormecer.

Domingo:
Dormes mais um pouco e acordas diferente. Acordas mais contente e acordas toda a gente.
"Levantem-se que está calor. Vamos embora. Andor."
Sentas-te no banco de trás de óculos escuros.
Está quente como gostas tanto.
Comes qualquer coisa à pressa duas vezes até lá chegares.
E encontras quem não esperas encontrar.

Mais de quinze anos.
Mais são mais de quinze anos sem com ela falar.
Não sabes o que dizer, não tens tempo para perder mas prometes recuperar.
Voltas meio atarantado, por tanto se ter passado, e pelo que mudou na vida.
Fixas o nada, ardes com a ferida.

Futebol. Adormecer. Açorda de camarão, voltas para junto do cão.
Pim.
Mais mentiras.

Vais ver como está a tropa.
O capitão está sozinho no quartel e ajudas no que podes para suavizar o "pincel".
Fechas o que tens a fechar e visitas a tabanca vizinha.
Chegas para uma abaladiça quem nunca vem sozinha.
Uma abaladiça tão franca, de cigarros e bandeira branca. "Aquela é tua, a outra minha"
Sentas o que resta para sentar, e ris com quem anda a festejar.
Sem demoras retornas, para ritualizar.
Caminhas cansado bem devagar, ignorando as vidas que queres ignorar.
E torna-se fácil.
Bem mais fácil.
Quando chegas a confessar, às sombras da noite que te acompanham, o que ficou por entranhar, sendo o único que todos estranham.
E torna-se fácil.
Bem mais fácil.

Voltas. Foges ao vento. Segues a luz. Até chegar perto.
Bem perto.
Sentado descansas onde não te devias sentar e sujas as calças que não querias sujar.

Retornas à base de cabeça vazia.
O cão tem sede. Tu tens fome. A guitarra tem saudades e o papel ainda mais.
Mas não lhe dás mimo.
Tens saudades, mas não fazes nada.
Há gente que precisa mesmo de descansar.

Como não tens sono, fazes qualquer outra coisa.
Ilegal obviamente.
Para ver a magia da arte dos outros.
E  adormeces clareando deitado e dorido, ouvindo aquilo que queres que seja ouvido.

2ª Feira:Toca o telefone.
Acordas de manhã cheio de tremores. Com o estalo sentido, no corpo os horrores.
Esticas doi. Vestes doi. Andas doi. Dobras doi.
Fazes listas.
Fazes o que tens a fazer, com o prazer e certeza de que vai doer.
E quando acabas.
Fazes outra vez.

Ignoras as listas.
Tens mesmo de as ignorar.
Mensagens, telefonemas, mensagens, telefonemas, mensagens, telefonemas. Está tudo na mesma.
E a mesma doi.
Assistes de robe à vida dos outros.
Tomas banho, os comprimidos, lês sobre os fracos e oprimidos.
Vais ao pão fintando o vento, agasalhado por fora mas não por dentro.
Sopa de peixe.
Telefone, telefone, telefone, telefone, telefone e mais telefone. Enquanto, computador, computador, computador, computador, computador e por fim telefone.

Ansiando talvez as mensagens queridas, mezinhas escolhidas que te curem as feridas.

Vês televisão. Jantas. Vês mais televisão. Apanhas mais vento.
E voltas a estar aborrecido.
Noite fora esperando a boa nova que chegará com a aurora.
Adormeces sem pensamentos.
Sem sentimentos.
Sem nada...
Só sonhos.

3ª Feira:
Acordas feliz.
Chegaram as frases que querias ouvir.
Estás mesmo feliz.
Já tens saudades.
E não interessa o que te querem vender. Porque pelo menos ali, nada existe.
E mesmo que alguém insiste, nada te pode afectar.
Estás feliz por ali não estar.

Não queres saber de mais nada.
Absolutamente mais nada.

E mesmo que tentem e voltem a tentar, não há maluqueira que te possa apanhar.
Não há força para te asfixiar. Não há dulcineias para ir salvar. Não há corrente que te possa amarrar. E nada que apague o que ficou por lembrar.

Vais trabalhar. A máquina só pega quando a terceira mandar. Apanhando a molha que queres apanhar.
E explicas explicando o que tens a explicar.
Pega à 1ª para regressar, num sopro constante para enfim chegar. Arrumas por fim o que tens a arrumar e...
Fazes duas máquinas de roupa.

Tentas o que tens de tentar.
O que consegues tentar. O que podes tentar. O que queres tentar. O tento que faça a luta vibrar.
O sim que faça a noite brilhar.
Mas nada consegues.
Não importa. Não interessa.
Dormes sempre bem porque tens vitórias para isso. E não há nada para vencer. É escusado arriscar.
Jogar só por jogar? É coisa de quem não sabe ganhar.

Não vale a pena. Não importa. Não interessa.

Ficas em casa a recuperar.

Olhas para as listas.
Fazes o que fazes sem te apressar.
Jantas, vais levantar dinheiro, compras tabaco, elaboras os planos que andaste a inventar.
Somas silêncios sem te preocupar.
Fazes mais gelo porque está a inflamar.
E cais no sofá para o filme apanhar.

"Que alivio!"
Sossegas.

Ligas coisas às tomadas. Fumas. Fazes festas ao cão. Mensagens? Chamadas? Ele diz que não. Descansas de andanças, de torto o chão.
Segues o ritual, e riscas palavras nas listas.
Para mim do mais banal, para ti bravas conquistas.

Deitas-te lúcido.
Informado novamente.
Acordando por acordar, e matar o que é doente.

E torna-se fácil.
Bem mais fácil.

Afinal por quem és?
Não tens saudades, mas dizes tudo.
Que não nasceste para ser mudo.
Há gente que precisa de descansar.
Gente que só é gente por se respeitar.
Adormeces feliz por nada acontecer.
Adormeces feliz por ninguém te mandar a mensagem que não queres ler.
Escutando o sonho com plena ilusão.
De mudar o mundo com uma canção.

Acordas, respondes.
Acordas mais leve.
Acordas e fazes as coisas que tens a fazer, pensando apenas no que é o teu dever.
E se o dia está para solicitações.

Organizas o resto durante o santo banho.
Escreves o diário com enorme tamanho.
É hora.
Vai-te. Some-te.
Chega de trabalho. Chega de palavras. Enterrem-se os versos, cheios de coisas parvas.
Vai-te vestir, daquele teu jeito, de cabelo louco e sorriso direito.
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São 18 horas e 42 minutos de 4ª feira, dia 21 de Maio de 2014.
Vou jantar fora!

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