sexta-feira, março 28, 2014

O Divã - XI - Dois pesadelos



Eu que nem sei como vim aqui parar.
Não sei onde estou. Acordo. Sonhei que estava deitado em cima duma cama de cadáveres. Tinham os olhos abertos.
Estavas lá e dizias-me baixinho:
- Olha que estamos deitados em cima de mortos.
Impecavelmente vestidos. Sem cheiros. Uma pilha deles. Todos conhecidos. Todos enterrados. Todos à nossa espera.
Acordo num suspiro. Na minha cabeça foi um grito.
Tu já não me acompanhas.
Estou sentado e nem sei como vim aqui parar.
Sei que voltarei a adormecer sem medo, e em segundos. Se calhar já estou a dormir. Torna-se difícil saber o que é verdadeiro... ou não - há quem lhe chame doença mental, outros realidade. Para mim é indiferente.
Estou desgraçado.
Estou à porta de um barracão branco. Enorme. Com uma porta de correr de metal verde.
Estou como podia não estar.
A trocar olhares com uma miúda gira. Só gira. Mais gira que tu. Tem um sorriso cheio de dentes bonitos e um vestido azul a dar para o esquisito. Parece que lhe está grande. Parece que é comprido, mas não é. Apenas parece. É gira. Muito gira. Bem mais gira que tu. Na mão direita abana-se uma bebida maricas a dar para o rosa.
Em volta está tudo escuro e é só mato. São arvores altas e de tronco grosso que adensam o breu. Parecem pinheiros, mas só consigo cheirar a terra. Assim é o chão.
Estamos no campo de certeza.
Estas merdas só comigo.
E eu não sei como vim aqui parar.
Dentro do barracão, que mais parece uma caldeira, ou um antigo matadouro, há uma festa para gente simples. Daquelas com músicas parvas e luzes nervosas. Daquelas onde tudo é rasteiro. As bebidas são uma merda, as drogas não valem caracol, as pessoas estão vestidas com roupas genéricas, brindando a trivialidades, com poses comuns, numa vasta exposição de vulgaridades. Gente simples, como eu gosto.
A miúda não pára de olhar.
De repente alguém balbucia o meu nome. É um conhecido. Simples como eu gosto.
"Elas começam a apertar", diz bem disposto enquanto acondiciona o copo de plástico aos dentes, "Só aqui mandar uma mix... ahhhhhhhhhh".
(Desmitificando a questão. As conversas "da noite", enquanto alguém mija, geralmente são curtas e não têm grande profundidade.)
Dá o último gole na cerveja com a pila na mão, e conclui alegremente, "Sacudir... Eu bem sacudo, mas fica sempre aquele pingo, não é?"
Despede-se com uma piscadela de olho e volta para o baile abotoando a braguilha das calças de ganga fora de moda, dançando fora de tempo. Cheio de estilo.
Penso: "Mas de onde é que eu conheço este gajo?
A miúda não pára de olhar.
Está numa animada conversa com um casalinho fatela. Simples como eu gosto. Daqueles que estão sempre agarradinhos. Do tipo "mete nojo".
"Hum hum... sim sim... pois... muito bom... pois... também também" diz acenando com a cabeça.
E olha de novo. E mais uma vez.
De repente apercebo-me que estou ao lado de uma poça de mijo e que talvez seja de bom tom sair dali.
(Mas só talvez!)
Vou até lá dentro ver o que se passa. Aposto que adivinho, e há uma parte e mim que até nem quer, mas aquilo deve estar simples... como eu gosto.
É só trocar mais um olhar com a miúda gira, tentar acertar com a beata no copo de plástico que decora a poça de mijo - há umas bestas de uns artistas que chamariam aquele desmazelo "uma instalação"-  e vou para dentro.
Dois olhares e dois sorrisos e arranco em passo penitente.
Ela está a olhar para mim de certeza. É melhor me endireitar e assumir pose... e é uma merda ouvir a tua voz naquele momento.
A puta da tua voz.
Eu que a destrinço no meio de uma multidão aos gritos.
Que merda!

Ai chegas toda contente, cheia daquelas amigas que inventas de um dia para o outro.
Foda-se! Não me apetecia nada ver-te. Merda, merda, merda, e as galinhas já estão a baixar o tom de voz. Uma de vocês já deu comigo.
Mas não dou parte fraca e acelero o passo para dentro da festa.
À porta está alguém sem importância. Não lhe consigo ver a cara. Silêncio entre ambos.
Ora como explicar... Ao entrar estou num hall, com paredes são brancas e sujas. O chão é de madeira, muito trabalhado e tem um enorme buraco no chão. Sem fundo, sem explicação, sem nada. Eu que só quero desaparecer. Eu que só quero fugir de ti. Evitar-te a todo o custo, contorno seguramente e pela esquerda o obstáculo. Três passos depois, encosto-me a uma secretária antiga, perto do curto corredor que dá para a sala onde as pessoas dançam. Puxo do maço de tabaco. O isqueiro está noutro bolso.
A rapariga do vestido azul aparece-me à frente.
- Estás cheio de vontade - diz sorrindo.
Aquele sorriso começa a dar cabo de mim.
- Nem imaginas - acendo o cigarro - isto não é bem a minha onda - desculpo-me com simplicidade.
- Eu percebi - sorri outra vez - Dás-me lume se faz favor?
Huuuuu ela está confiante. Olhos nos olhos. Há aquele brilho que desfoca tudo o que está à volta dela. Tem uma voz linda. Agora sim. Começo a ficar interessado.
Vou-lhe perguntar o nome. É melhor não... Faz um truque dos teus. Agarra-lhe a mão para ver aquele anel marado que ela tem na mão esquerda. Tiras já uma data de teimas.
Assim faço.
Ela fica surpreendida com a ousadia, mas entrega-se à brincadeira.
- Gostas? - pergunta enquanto olha para as nossas mãos juntas.
- Gosto... é giro. Fica-te bem! Combina contigo.
Sorriso.
- Obrigado - agradece meio envergonhada.
- De nada.
Ajeita o cabelo, olha para o lado sorrindo e volta a mim decidida.
Ou seja: Isto está a ficar bom para o meu lado.
- Estás sozinho?
- Estou com uns amigos. Estão ai p'ra dentro a curtir.
- Queres ir... Não vais ter com eles? - pergunta preocupada.
- Nah, eles já estão muito acelerados para mim.
A expressão facial descontrai.
- Se quiseres...
- Não - interrompo - dispenso.
- Não danças?
- Só danças de salão e kizomba.
O fumo sai-lhe da boca para o lado, enquanto ela soluça um riso. Tosse duas vezes.
- 'Tás bem? - pergunto.
- 'Tou, 'tou!
Pausa para se compor.
- Mas estás a falar a sério? - insiste.
- Não. 'Tou só a brincar.
- Podia ser. Na boa... nada contra.
Mão no meu ombro.
- Mas eu tenho. Aliás tudo contra - interrompo.
Ela parte-se a rir.
- Eu também não gosto nada, mas as minhas amigas se te ouvissem...
- Ahhh, também não estás sozinha.
- Não... quer dizer... eu trouxe o meu carro. Passei aqui para as ver... e para estar um bocadinho com elas.
Isto está definitivamente a compor-se.
- Queres ir ter com elas? Não faças cerimónia. Não precisas de fazer sala comigo.
- Eu sei - diz-me assertivamente... bem, bem, bem, no fundo dos meus olhos - Tu não és de fazer fretes.
Huuuuuuuuu... Ela lê-me. Cena mística. Telepatia. Está cheia de jogo a menina.
- Já deu para perceber - continua - Mas podemos beber um copo juntos. Elas estão p'ra 'li entretidas, nem dão pela minha falta. Anda eu pago.
- Não isso não. Eu insisto - respondo muito machão.
- Deixa de ser parvo. Sou eu que estou a convidar. Estás a beber o quê?
E já me interrompe. E já vasculha a mala. E não queiras saber querida.
Gin, whiskey, cerveja, um risco e meio de uma branca manhosa, quatro comprimidos "para acalmar os nervos," e dois cálices de aguardente de medronho.
Não necessariamente por esta ordem.
- Pode ser uma cerveja... Não, espera. Que estás a beber? - pergunto apontando para o copo dela.
Uma bebida maricas, com um nome apaneleiradissimo, e que de certeza me iria rebentar todo.
Ela ri-se.
Arrancamos para o bar com aquele passo "transito pinguim". Aquele que temos quando estamos num sitio com muita gente e pouca luz.
Estou atrás dela e sinto o cheio do seu cabelo invadir-me a memória.
Poucos metros de magia depois chegamos ao balcão.
São duas bebidas cor-de-rosa e uma data de gritos.
Ela vasculha novamente a mala mas sou eu que pago, sem ela dar por isso.
- Quanto é? - pergunta gritando à miúda gasta, tatuada e que já foi jeitosa antes de namorar com um atrasado qualquer, que agora serve copos, exibindo um decote desnecessário.
Soutien à prova de bala, desafiando Newton e a puta da maçã.
- Ele já pagou - responde-lhe simpática apontando para mim.
Eu dou um gole na bebida maricas. É doce e forte.
- Ohhh. Esta pagava eu. Eu é que ofereci - diz-me fazendo beicinho.
Encolho os ombros.
- Não tem importância - respondo com dificuldade. Está muito barulho.
Ela apercebe-se e agarra-me na mão, arrastando-me para o local onde estávamos antes.
- Anda.
Digo boa noite a mais três pessoas. Conhecidos. Malta fixe. Simples como eu gosto e volto-me a encostar à secretária.
'Tou moído. 'Tou velho para estas merdas, mas ela continua segura à minha frente.
- Ali dentro não dá para falar.
Concordo.
Pausa. Gole. Olhar. Sorriso.
- Então como é que o senhor se chama? - pergunta brincando.
- Olá! - interrompes tu.
Foooooooooooooooooooooooodaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa-seeeeeeeeeeeeeeeee. Caraaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaalho.
Eu não acredito. Mas que merda. Mas porquê? Porquê? Foda-se.
Chegas toda pindérica, com esse "olá" da merda, sorrindo como se nada fosse, com essa vozinha aguda, irritante... É que chegas mesmo. Vens para ficar.
Vens para me estragar a noite. Vens sozinha e armada em parva. Vens risonha e assumindo a tua inconveniência.
- Eu disse "Olá"! - insistes.
Todos estamos em silêncio, olhando uns para os outros.
A rapariga do vestido azul olha para ti admirada. Intrigada com a situação, vira-se para mim e diz-me incomodada:
- Eu já venho. Vou só ver das minhas amigas.
Ainda lhe agarro a mão e peço:
- Não vás.
- Eu já venho. Eu venho já. Só um bocadinho...
Diz-te "boa noite" e arranca para a sala.
- Deixa a ir, deixa a ir - dizes com desprezo, gesticulando ao mesmo tempo.
Suspiro longamente e com enfado. Agastado por me estragares o momento e pergunto agressivamente:
- O que é que tu queres?
Tu não mudas a expressão, não desmanchas o boneco e ali ficas. Abanando-te lentamente, nervosamente, sem me responderes.
Tu não me queres responder. Nunca quiseste. É sempre a mesma merda. Odeio-te. Odeio-te a sério. Odeio-te mesmo. Eu nem sou de odiar, mas não te suporto. Irritas-me, enojas-me. Vai "pó" caralho.
E no segundo em que vais falar, acordo.
É de manhã.
Estou na cama.
Sozinho.
Acordo mesmo. Desperto com fúria. Irritado comigo.
Foda-se.
Dois pesadelos e uma miúda num vestido azul que desapareceu para sempre.

Isto é trauma.
Para a semana volto à terapia.

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