O Divã - X - Faz o que for melhor para ti




Luz, vibração,
Pim
"Vou dormir. Não me apetece falar".

Fico boquiaberto olhando para a merda da mensagem até o ecrã descansar.
Incrédulo.
Quieto.
No reflexo estou no meu melhor.
Não sei bem.
Parece que sim mas não me reconheço. Há algo na minha expressão que me abre ao meio. Que me despreza. Há qualquer coisa que se transformou e não me deixa tranquilo.

Respiro fundo, encho-me de coragem - na esperança de me ter enganado, de ter lido mal - e volto a carregar no ecrã do telefone.
Não dou tempo ao suspiro, atiro o telefone para cima da mesa e puxo pelo ultimo cigarro do maço já meio destruído.
- Foda-se - desabafo baixinho e arrastadamente.

Fogo à peça.

Antes da mensagem liguei duas vezes. Outras duas vezes rejeitou-me a chamada.
Porque já era "altura de terminar esta conversa". Porque já estava a ser "demasiado longa" para o gosto dela. Porque me "adora mesmo muito". Porque faça o que fizer, o que ela "sente por mim" não irá mudar. Porque me devo "ir foder" com aquela conversa, já que a menina "tem mais com que se preocupar". Eu que se estou farto dela "só tenho uma coisa a fazer".
"Faz o que for melhor para ti" - escreveu indelicadamente.

O que for melhor para mim?

Odeio quando a minha cabeça dispara ao mesmo tempo que o peito.
É como se explodisse internamente.
Uma série de estranhos mecanismos de auto-controle são accionados, contendo a violência com que o meu instinto me instiga. A mim que só me apetece rebentar com tudo, abraçando furiosamente a ira, aproveitando o transe para me sublimar. Sem temor, consciência ou dor. Como me custa controlar a selvajaria da minha reacção. A majestosa força da mais pura raiva, sedenta de confronto, certa de vitória, buscando o massacre, num ataque desproporcionado.
É o pior de mim em todo o seu esplendor e magnitude.
Como dizem os antigos desabafando o seu sofrimento:
- Só eu e Deus é que sabemos... Só eu e Deus...

E Deus, no dia em que nasci, quis que fosse doido profissional.

Apago o cigarro com força e enquanto mando o fumo para fora de mim, digo baixinho:
- O que for melhor para mim!

Se calhar devia lho dizer? Ou escrever. Responder com uma sms à puto... mas não. É melhor pensar noutra coisa. É melhor engolir o sapo. Ficar com isto atravessado na garganta. Prender-lo no peito. Se gosto assim tanto de me autodestruir, é preferível acelerar o processo.
Até porque já lho disse.
Ela é que não acreditou.
Estaria só a ser repetitivo, e eu odeio sê-lo. Para redundâncias já me chega a estupidez que teima em invadir a minha vida, uma e outra vez... até... ser de vez.

Acendo outro cigarro.
Até porque isso é só fumaça e o povo é sereno.
Mas sereno é que não estou.

Ora "o melhor para mim" passaria por aceitar sem melindre a minha derrota.
Para quê continuar a acreditar quando posso amargar de vez?
Ando a falhar vezes demais. O meu instinto está comprometido.
No dia em que o Diabo me viu, apaixonou-se por mim. O tinhoso aproveitou-se de todas as minhas fraquezas - eu que nos pecados capitais encaixo nos sete - Encheu-me de presentes, brilhos e outras maravilhas vãs. Corrompeu-me com promessas de felicidade e Amor. Tudo do mais rico e do mais belo.
Resumindo.
Estou condenado.
Embruxado.
(A minha Mãe diz que sim! Ainda hoje me disse.)
"O melhor para mim" é calar-me.
De que me serve apregoar verdades a quem vive mentiras?
(Todos vivemos... mas isso é outra conversa.)
Vou insistir? Valerá a pena?
(E não me tragam a conversa da alma, que a pureza está em extinção, e já pouco têm a noção de grandeza.)

Hesito.
Olho para o telefone e imagino-me a desbobinar vociferante tudo o que galopa cá dentro. Tornar a madrugada fria, numa briga quente, cheia de fogo de artificio e explosões desmedidas.
"Desde quando é que tu decides quando é que acaba a conversa? Mas o que é que te passou pela merda dessa cabeça?
Achas mesmo que se não sentisse que é importante, incomodava o teu precioso descanso? Mas que estupidez... Darás alguma importância ao que estou a sentir?  Serás assim tão egoísta, ao ponto de te estares completamente a cagar para mim?
Já te escorreu que não me quero ir deitar chateado contigo? O tempo muda tudo, se perdemos o momento, perdemos perspectiva sobre o assunto.
Deixa de fugir. Que cobardia é essa? 'Tás com medo do quê? Queres controlar o que sentes, o mundo e o resto do universo? Mas tens assim uma auto-estima tão baixa? Justificas essa condição com que trauma? Elucida-me... Ilumina-me... Deixa de ser infantil... Não chega já dessa merda? Não é tempo de cresceres?
Explicas-me o teu fascínio por imbecis e imbecilidades? O que é que ganhas em ser parva?
Podemos falar do fundamental?
Odeio pontas soltas! Estou farto dessas vulgaridades. Novelas de quinta categoria. Mas temos 15 anos ou pensas que eu sou como os teus namoradinhos da merda, que te aturam o feitio e as manias todas?
Primeiro dizes que me adoras e que estás apaixonada por mim, num turbilhão enorme, que te encanta, que te faz sentir viva, mas não te mereço respeito nenhum. Se o afecto fosse verdadeiro não te comportavas dessa maneira."

Hesito.
Hesito porque não há fim para a minha desilusão. Porque estou mesmo magoado. Porque não há remédio para quem não se quer curar.
"O melhor para mim" era ela.

A mim resta-me desaparecer silenciosamente - como um ninja - deglutir as palavras que ficaram por lhe dizer e rezar para que ela não me contacte novamente.
Que não há nada mais volátil que um Amor verdadeiro.

"Faz o que for melhor para ti"
Está descansada que vou fazê-lo.
Fode-te!

Apetecia-me parar de pensar nisto. Um copo. Apetece-me um copo.
Preparo um whisky do mais velho que tenho em casa. Duas pedras. Para bebe-lo olhando o nada da noite pela janela, atravessando o meu reflexo.
Sempre o meu reflexo.
Será que vou passar a minha vida nisto? Deus e o Diabo a pregarem-me partidas à vez.
Do nada descubro uma criatura maravilhosa. Apaixono-me sempre pela mulher mais fantástica do mundo, e por um motivo qualquer, tudo vai por água abaixo.
Um motivo - esta dá-me vontade de rir.
O motivo sou eu.
(Esta-me a saber tão bem este copo.)
Será que me estou a habituar? A esta casa silenciosa, numa solidão a preto e branco, num vazio que teima em crescer.
Será que estou vivo?
Quem é que está para aceitar uma alma esburacada, amachucada, rasgada aos pedaços?
No fim do copo apago a luz e avanço para o quarto.
Tiro os sapatos sem me baixar, usando os pés. Depois o relógio do pulso. O telefone fica na sala e a minha cabeça estrangula a memória antes que me dê a travadinha.
Deixo-me cair na cama vestido. Ponho as mãos atrás da nuca e fico a olhar para o tecto.
A luz da rua faz aqueles sombras que tento endireitar com o olhar.
Depois do suspiro surge o paradoxo: Porque é que não me sinto sozinho?

Uma risada rompe quarto fora.
- Sou tão estúpido - confesso sozinho.
Fecho os olhos sorrindo.
Feliz da vida por o cheiro dela estar por todo o lado.

Fode-te!

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Dinosaur Love by Harry Baker

O que é ser rude?

A Dieta - 1 - Abotoar é um verbo sério