quarta-feira, janeiro 08, 2014

O Picuinhas

Todos nós temos aquele amigo.

Aquele rapaz mais tímido, solitário, um pouco introvertido, com pinta de "menino copo de leite", meio totó, com medo de ficar solteiro para o resto da vida...
Esse mesmo.
Aquele que teve duas ou três namoradas, todas elas a dar para o esquisito. Das que "não arrebanham bem o gado".
Esse gajo.
Esse tipo que parece que puxa o azar. Que o raio cai duas ou mais vezes no mesmo sítio. Que nasceu embruxado.

Ora eu também tenho um amigo dessa espécie.
Vários talvez.

Acontece que o meu amigo, além das características acima enumeradas, tem outra que lhe faz correr o tempo mais depressa: É "picuinhas".

Não estou a falar de padrões ou de expectativas legitimas, estou a falar de ninharias.
De toda e qualquer desculpa para não se meter noutra.

Atenção que não me estou a referir a uma pessoa, com um tipo de mulher. Este não pertence à classe dos especialistas: Os arrastões, os pitólogos, os papa-mães, os pescadores, os das divorciadas, os que buscam "patinhos feios", os "xilofone de osso", os "carta de pesados", os "fruta madura que ainda rompe meias solas", os das brasileiras, os abutres, os "pesa mais que uma bilha do gaz e já sabe ler", os exóticos, os "gajas que parecem homes", os das doutoras, os "mulheres há muitas, heranças há poucas", os das doidas, enfim... toda a variedade de "ninjas da bandidagem" que por ai circulam.
Não escrevo destes comandos batidos, escrevo de um puro sem tipologia.
Este man é da tropa macaca.

Este gajo é esquisito.
É para além de esquisito.
É completamente adoidado. Chalupa mesmo. O moço tem uma jigajoga qualquer na cabeça, que o impede de agir eficazmente com uma fêmea.

Passo a exemplificar.

(Todos os nomes utilizados serão fictícios... ou talvez não)

- Precisava mesmo de uma namorada. - desabafa ele lucidamente.
- Então e a Rute? Já se andam a comer há bué. Não gostas dela?
- Epá... Eu até gosto dela, mas ela depois está sempre muito apaixonada, toda das entregas, e eu não 'tou para esses amores.
- Mas se ela gosta de ti e tu gostas dela...
- Eu gostar gosto, mas não é aquele gostar gostar. Percebes?
(Não)
E continua.
- Depois também não tem aquele nível boneca. Ela não é feia, mas também não é linda... Não é que eu só queira gajas lindas, mas... não. Não é miúda para mim. Se ela se pudesse evaporar no fim de cobrimos, era o ideal.
- Ah, não curtes falar com ela? Não gostas de partilhar tempo com a rapariga?
- Não é isso. Nós falamos bué. Cenas sérias da vida dela e tudo. Somos amigos 'tás a ver? Mas é só antes de irmos para a cama. Depois ela vem-me com meiguices, miminhos p´ra qui, abraços p'ra acolá e p'ra isso já não tenho paciência.
- Pá, mas isso faz parte. ´Tá nas regras do "cobrimanso". Também é só um bocado.
- Ya, mas ela é muita chata.
- Mas se gostas de dormir com ela. Se gostas dessa parte... já sabes que tens de pagar portagem. Ou não curtes?
- Curto curto. Nisso ela é valente. 'Tá sempre pronta. Tem sempre vontade. E gritos até ao fim do mundo. Um gajo fica todo cavalão. E tudo. Com ela não há limites. Tem um corpo bem fixe e é doidona. Aquilo é tudo nu, tudo a cavalo.
- Fixe fixe... Eu não sou daqueles gajos do demasiado doidona. Não percebo essa categoria. Há gajos que se acanham quando a mulher é mais activa.
- Isso 'tá-se bem. É só ter uma beca de cuidado nos preliminares com a roupa, que o moist deixa aquela nódoa fatela. Passava a vida a limpar as pontas das camisas. Agora ponho-me logo em tronco nu.
- Então ainda não é desta? - pergunto.
- Nah...
- E a Margarida?
- Vive muito longe. Ainda por cima é amiga do pessoal e isso deixa-me desconfortável.
- Porquê?
- Não sei. Não me sinto à vontade andar com gajas com muitos amigos em comum comigo.
- Isso é estranho meu.
- Epá pode ser, mas... não curto.
- E a outra? A Catarina?
- Qual?
- A amiga do Pedro. Aquela que conheceste quando foram todos sair lá naquela cena hipster no Bairro Alto.
- Ahhhh. Ya. Essa é divertida. Muito fixe. Trocamos números de telefone e tudo.
- Andam nas mensagens?
- Não.
- Não lhe disseste nada?
- Não. Não sei o que lhe hei de dizer.
- 'Tás-me a dizer que tens o número dela há meses e ainda não lhe disseste nada? - pergunto incrédulo.
- E vou-lhe dizer o quê?
- Sei lá meu. Inventa. Não estiveram uma noite inteira a falar? Sozinhos...
- Ya. Estivemos.
- E falaram do quê?
- Não sei. Já não me lembro. Bué cenas.
- Quer dizer. Chegaste aqui a dizer que ela era gira, simpática, com sentido de humor...
- E é. - Interrompeu ele.
- E nunca mais lhe disseste nada? Achas essa merda normal?
- Não sei o que lhe dizer.
- Foda-se - sai-me indignado - manda-lhe mensagem agora.
- A dizer o quê?
- Qualquer merda. É só para ela saber que te lembras dela. Convida-a para um jantar, cinema, um café... essas coisas do "quero-te comer", disfarçado do "quero-te conhecer melhor".
(Nem entendo muito bem estes disfarces que não o são)
- Agora não. Eu amanhã envio.
- Agora não porquê?
- Porque não... Sei lá... tenho de pensar no que lhe vou dizer...
- Porra. Tu assim não desencalhas.
- Que é que queres? Sou assim.
- És como és... Mas essa cena é de amador.
- Epá... - responde resignado.
- E a Núria?
- Boa! Boa tranca.
- Tens falado com ela?
- Só no facebook. Mas foram só três vezes... E conversas da merda...
- Pelo menos tens o número dela?
- Era para lho pedir, mas depois esqueci-me. Mas a pita tá boa. Quem diria?
- Não sei como é que ela era. Já só a conheci crescida.
- Eu também só sei porque de vez em quando, ia lá à loja da mãe dela. Mas muita campónia. Lembras-te daquela noite?
- Ya.
- Eh pá. Ela e a outra a falarem... Cuidado. Muita rudes, sem conversinha nenhuma de jeito, com um sotaque muita carregado... eh eh... todas pindéricas. Aquelas duas também é só corpo, que lhes vai um vendaval entre as orelhas... E de cara também não são grande espingarda.
- Mas davas-lhe uma trinca?
- Epá dava, mas tinha de 'tar calada. Se ela se pusesse com ideias era logo: Psiuu. Pouco barulho. Mansa. Aquela vozinha da-me dores de cabeça.
- E a outra psycho? A que falta do trio Odemira?
- Também gosto. Um bocado a dar para o osso, mas também o gramava.
- Prudência. Faz atenção que ela tem namorado.
- Ah pois é. Já me esquecia.
- Quer dizer. Hoje em dia...
- Ya meu. Elas todas têm namorado, ou em vias, ou amancebadas com algum xunga. Conheces alguma gaja que não esteja metida num cambalacho qualquer?
- Poucas. Muito poucas - confesso.
- Isso também me faz uma beca de confusão. Parece que não conseguem 'tar sozinhas? É um estigma social qualquer. Eu não percebo... Vês? Nestes moldes, um gajo não tem muito por onde se mexer?
- Eu acho é que tu não dás conta da fartura. Não dás vazão - provoco brincando.
- Mas não dou o quê? Qual fartura? Mas onde é que tu vês essas gajas, que eu ando por todo o lado e nada me vem parar ao colo? Isto parece os saldos. Está tudo escolhido e remexido. Parece a feira.
- Epá mas tens de dar hipótese. Às vezes está lá um diamante. É preciso ter calma e analisar devidamente.
- Eu não me oriento assim. Dantes eram todas diferentes, agora são todas iguais. Vestem-se de igual, falam igual, agem igual. Agora as pitas todas têm óculos de massa? Achas essa merda normal? Desde quando? Vamos à discoteca, e já nem sabemos se elas tão em lazer ou em trabalho? É que elas pensam que estão muito lindas, mas aquilo é só foleiradas. Cotas e tudo. Eu já percebia pouco do artigo mas agora 'tou mesmo às escuras. Dizem-me para procurar, mas eu p'ra estes carnavais, prefiro nem sair de casa.
- Quem procura... acha.
- É disso que tenho medo. De achar mais entulho. Desculpa lá mas não consigo ser positivo na cena. Eu acredito no Amor. Quem me dera a mim encontrar o Amor da minha vida e essas coisas todas muito lindas, mas assim... Olha-me para este Mundo. Olha-me para a noção de Amor que existe hoje em dia. Olha-me para as relações das pessoas. Tudo faz de conta. Tudo inventado... e pior... por outras pessoas, pela sociedade, pelo que deve ser. O rebanho zombie cresceu e vai lá descobrir o Amor da tua vida no meio daquilo tudo. É preciso ter muita sorte.
- E a solução é desistir?
- Epá eu não sei de soluções, mas quando descobrir... se descobrir... és o primeiro a saber.

Fico contente por ele ser picuinhas.
É bom sinal.
Salvem os picuinhas.
Não à extinção.

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