O Divã - IX - A FÉNIX pt II




Espera um bocadinho...
Vou só apagar o cigarro e buscar o meu caderninho.
Daqueles pretos com elástico, meio pretensiosos, a dar para o intelectual.
- Puro clichê.
É que eu tenho a mania de anotar.
De apontar, de assentar, de esquematizar, de organizar, de planear... E isso nem sempre me faz bem.

Não combina com o resto da minha vida.

É que eu tenho uma deficiência.
Eu adoro gente doida.
Mas adoro-os visceralmente.
Passo horas da minha existência em surreais conversas, cheias de máximas e certezas. Dias a deambular por estranhos dogmas, que misturam filosofia, vício e mania nos cornos.
Sou "socialmente activo".
Faço-o para me divertir.
Gosto de sair e falar com diferentes tipos de pessoas. Gosto de as observar, de as ouvir e de me rir com elas. Gosto de debater ideias, assuntos, opiniões, gostos, e tudo o que as circunstancias permitirem.
Gosto de partilhar.
Apesar de manter um infantil fascínio pelos mais invulgares - os vilões, os não-alinhados, os renegados, os incompreendidos, os rebeldes, os que "têm pancada", os que "não jogam com o baralho todo" - estaria a mentir se dissesse que aprendo menos com os "comuns". Os normais. Os mais simples. Os que estão no rebanho. Os chatos.
O retorno é idêntico.
É que eu tenho uma deficiência.
Gosto desta simbiose.
Fomento essa dicotomia.
Preciso que ela continue a existir, porque estou completamente viciado em observar pessoas, inventando novos estereótipos.
Adoro com o mesmo fulgor, tanto uma boa hipnose de massas, como o louco da aldeia que apenas consegue dizer a verdade.

- 'Tás ai?
- 'Tou - responde ela do outro lado com aquele sorriso.
- Quando te quiseres ir deitar, diz. Eu desligo.
- Não tenho sono. Sabe-me bem ouvir-te. Gosto de falar contigo.
- Eu nunca tenho sono - desabafo.
- Já reparei. És puro desassossego. Tens toda a vida dentro de ti... Eu gosto disso.
( Comigo é sempre "Eva e Adão". Nunca o inverso.)
 - Achas-me doidinho de todo, portanto - respondo brincando.
( Nunca sei como responder a um elogio. Mas tenho de aprender. Já é hora de correr bem.)
- Ache o que achar. Acredita que não têm importância. Adoro-te na mesma... Desassossegas-me. Não me sais da cabeça.
( Uma mulher que tudo revela, não tem golpes para dar.)
- E da pele? - provoco.
- Não me sais de lado nenhum - responde-me num suspiro doce.
( Adoro-a. Sinto-me um puto. É a prova. Estou vivo e ainda acredito.)
- Queria estar contigo... Queria tanto te beijar, mas tanto... - confesso baixinho.
- Eu também. Preciso tanto de te sentir.
- Então temos de resolver isso - respondo fanfarrão.
- Agora! Vem ter comigo agora. Já!
- Agora?
- Já devias cá estar.
- Nem tenho hipótese pois não? - brinco mais uma vez.
- Não.
( Silêncio. Ainda estou a digerir a coisa. O peito acelera.)
- Vens? - pergunta-me irresistivelmente.
- Vinte minutos e estou ai.
- Dá toque quando chegares.
- Ok. Beijos.
- Beijo.

Por um segundo olho para o telefone mudo e penso: "Devia ter dito trinta."
Mas aqui não se luta justamente. "Azar o meu."
Na minha cabeça apressada desenrola-se um infalível plano de acção.
Tomei banho há pouco tempo e apresso-me a lavar os dentes.
Visto-me num par de minutos, borrifo-me ligeiramente com o meu melhor perfume e encho os bolsos do casaco com o indispensável: Carteira, chaves de casa, chave do carro, maço de tabaco e isqueiro. Os trocos vão para o bolso das calças.
"Caramba, já sei que se vão espalhar todos assim que me sentar no automóvel. Que se lixe."
Vejo as horas, apago todas as luzes, faço uma festa ao cão que dorme a sono solto e fecho a porta de casa.
Enquanto desço para a garagem vou pensando se me esqueci de alguma coisa.
"As luvas, porra."
Ao último degrau viro o sentido da marcha e corro escada acima.
Mal abro a porta, tento fazer uma selecção de qual interruptor me poderá ajudar a ver o caminho até às luvas. "Não penses mais nisso. Carrega em todos."
Tenho pressa dentro do peito e por mais rápido que seja o pensamento, nunca conseguirá bater a minha ansiedade.
Apago tudo outra vez, volto a fechar a porta e assim que desço as escadas pego nos trocos que tenho nas calças, e transfiro a quantia para um bolso do casaco.
Chave do carro.
Click.
Fecho a porta e atiro o casaco para o banco do pendura.
Carro a funcionar. Música.
Mute.
Isto não é viagem para distracções. Aliás, raramente conduzo à noite com o radio ligado.
Comando do portão.
Click.
Pela primeira vez na vida, acho o mecanismo demasiado lento para as minhas necessidades.
"Será que dá para programar isto para abrir mais depressa?"
Rio sozinho da minha estupidez e acalmo um bocadinho.
"Tem calma rapaz. Olha para o relógio. Tens tempo. Vai com cuidado."
Adoro o meu carro novo. É a extensão ideal do meu ego masculino. É potente, bonito e confortável. Melhor, só mais caro... e mais raro.
Deslizo dentro da lei, pelas ruas molhadas, agora vazias. Sereno e atento. Pelas ruas onde já passei tantas vezes e de tantas formas diferentes. Ora sozinho ora acompanhado. As ruas onde tanto aprendi. As ruas que me foram aconchegando pensamentos, paixões, surpresas, traumas, eu sei lá...
"Agora... Já sou grande. Já sou adulto... ou quase" penso para mim, troçando da minha urgência em amar.
Ela inspira-me.
Esta mexe comigo de uma forma diferente.

Os passos vão-se dando lentamente e tudo se apaga devagarinho.

Aqui estou, rodando de somáforo em somáforo. Recordando de como as mulheres são tramadas. Têm um péssimo timing de chegada à minha vida! Ou é muito cedo, ou demasiado tarde. Ou está muito frio, ou o verão é impiedoso. Mas sempre fora de tempo, acompanhando-me madrugada fora, em insónias, onde as unhas sofrem, até saborear o sangue. Até ouvir acordado o irritante barulhinho do despertador.
Esta deixa-me dormir.
Nada inventa.
Apenas sente.

Há quem diga que "não se pode ter tudo"! Mas bem cá dentro, tenho um demónio, bem gozão e persistente, que me questiona sempre: "E porque não?"
E insiste:
- Porque não hás-de ter tudo?

Faço pisca para a direita e cheguei ao meu destino.
Na rua amontoada de carros, um qualquer acaba de sair, deixando-me um espaço para estacionar a poucos metros da entrada do prédio dela.
Puxo o travão de mão e desligo o veículo.
Click
Arrasto qualquer coisa impalpável e ligo.
- 'Tou?
- Estou cá em baixo.
- Eu abro-te a porta. É o 2º esquerdo.
Click
Caminho em direcção à porta do edifício.
Bbbzzzzt
A porta da rua abre e logo a seguir bate devagar.
O elevador já cá está em baixo.
Carrego no 2 e olho-me ao espelho. Dou um jeito ao cabelo até gostar do que vejo e sorrio para mim mesmo.
Pim.
Na porta entreaberta está o sorriso mais lindo do mundo, emoldurado por um fino robe pérola aberto, disfarçando uma condizente camisa de noite, muito elegante.
- Despacha-te - diz baixinho enquanto ri, fazendo-me sinal com a mão.
Eu faço-lhe a vontade com prazer.
A porta fecha.
Um beijo da-se.
Um abraço sente-se.
Com as mãos na parte de trás do meu pescoço, olha-me sorridente, bem no fundo dos meus olhos e troça.
- O menino está 3 minutos atrasado.
- Desculpe, mas chegar-se a horas não dá estilo. É sinal que não se tem mais nada para fazer - respondo brincando.
- Ah sim? Por acaso tens melhor coisa para fazer que me beijar? - questiona confiante.
- Para ser sincero... nunca tive.

A magia acontece.

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