quarta-feira, janeiro 15, 2014

O Divã - VIII - A FÉNIX pt I




A porta do carro do carro fecha-se automaticamente.
Agora tenho um carro fino.
O chão do parque de estacionamento está cheio de poças de água. Por algum vaidoso motivo o caminho mais rápido entre dois pontos não é uma recta.
Ajeito as luvas e preparo o guarda chuva enquanto subo as escadas.
Olho para o céu mas ele não me sorri. Chora-me um inverno vulgar e um arco-íris pouco colorido.

A cidade não faz muito. As pessoas acabaram de almoçar há pouco e o ritmo é tranquilo. Uma massa cuidadosa, sapateando no compasso dos pingos grossos.
Esses incómodos kamikazes líquidos.

As botas novas podem ser lindas, mas quando combinadas com a calçada, fazem-me gingar mais do que necessário. Aí vou eu, dançante e fora de tempo, a caminho do consultório.
Danço sem querer.
Desvio-me duas vezes e troco olhares com uma loira serena. Rapariga para as minhas idades, muito bem vestida e certamente comprometida.
Ela sorri discretamente mas a minha responda é mais rasgada.
A ousadia vale-me aquele mágico rodar de cabeça. Silencioso. A cena é composta pelo sorriso surpreendido. Arrancado pela minha falsa segurança. Olhos nos olhos em passo lateral, afastando-nos lentamente.
- E como era lindo aquele sorriso.
Volto a olhar para trás e encontro-a de novo. Embaraçada e brilhante. São demasiados sacos de compras pela porta de trás de um carro.
Ela ajeita o cabelo e endireita a pose como se esperasse por mim, mas eu encolho os ombros e aponto para o pulso.
- Estou atrasado.
Ela responde resignada com a expressão no rosto.
- É pena! Fica para a próxima.
Retorno ao meu caminho e antes de bater com os olhos no chão, já vou a pensar.
- Cobarde de merda. Por uma mulheres daquelas vale a pena chegar atrasado a todo o lado. Até podia ser a mulher da tua vida. Agora nunca mais a vês.
Faço sempre isto: Recebo o convite, mas nunca avanço... e depois arrependo-me.
Já está na altura de virar à direita, andar uns metros por uma rua torta e tocar à campainha.

- Bom dia. Como é que está? Tudo bem? - Pergunta-me ele com um tremendo sorriso.
Este tipo está mesmo contente por me ver.
- Está tudo bem obrigado - respondo educadamente.
- Entre, entre. Pode deixar ai o guarda-chuva - Indicando-me o local com um gesto.
- Obrigado - agradeço enquanto limpo os pés no tapete.
- Venha, venha. Há tanto tempo que não aparecia cá. Até pensei que já me tinha abandonado.
Eu vou andando, desapertando o casaco e retirando as luvas.
- Entre e esteja à vontade. Quer alguma coisa? A mim apetece-me numa chazada. É de camomila.
- Não doutor. Obrigado. Estou bem. Acabei há pouco de almoçar.
- Se mudar de ideias, não faça cerimonia.
Deve estar a tentar bater um recorde de amabilidade - penso eu sarcasticamente.
- Sente-se se faz favor.
Eu aceito o convite e continuo a despir-me. O consultório está quente. Primeiro o casaco, depois o cachecol.
- Já estava com saudades suas - diz sorridente - Está com bom aspecto! Está mais magro?
- Estou sim - respondo sorrindo.
- Mas tem feito alguma coisa? Desporto?
- Não doutor. Só stress, má alimentação e tabaco - ironizo.
Ele sorri.
- Mesmo para quem se tem tratado tão mal, está muito bem. Mas diga-me. O que o trás por cá? Que é que tem para me contar? Já não aparecia por cá há uns meses.
- Deixe-me só por o telemóvel no silêncio.
- Faça favor.
Suspiro fundo e atiro:
- Nem sei por onde começar.
- Diga-me você! Eu não sou adivinho - diz brincando.
- Esta altura do ano é sempre tão cheia, que tenho medo de não conseguir organizar o discurso de forma cronologicamente eficaz.
- Então, se bem me lembro da ultima vez que cá esteve... Como é que está aquela situação com a rapariga? Já resolveu a questão?
- Sim já - respondo orgulhoso.
- E então? Como foi?
- De uma forma pouco ortodoxa - respondo divertido.
- Não esperava que fosse de outra forma. Afinal de contas, não podemos deixar de ser o que somos.
Ele tem graça.
- Por vezes dava jeito, mas realmente não podemos.
- Mas conte-me!
- Estou resignado e de consciência tranquila. Tentei de tudo mas não tive hipótese. Ela não me deixou alternativa. Ainda nos voltamos a reaproximar mas as dinâmicas dela continuaram. Dizia que ainda me amava mas as suas acções não o comprovavam. Dizia-me uma coisa mas acabava sempre por fazer outra. Além disso, tudo se tornou ainda mais doentio. Obsessivo. Compulsivo. Mentiras sobre mentiras, turbilhões de emoções, enfim... você tinha razão.
- Sim eu alertei-o para as condições dela. Pelo que me contou, era pessoa que nunca poderia encaixar na sua dimensão, na sua vida. Até pelos comportamentos que apresentava consigo. Seria muito difícil para si. Não estava em posição de lidar com uma personalidade tão conturbada.
- Pensei que fosse mais complicado. Terminar tudo, entenda-se. Até porque a páginas tantas, pensei ainda em tentar ajuda-la.
- Como assim?
- Com aquela doença toda que se apoderou da vida dela. Ela estava irreconhecível. Completamente insatisfeita e destruída... mas... se o fizesse, poderia comprometer o meu equilíbrio. A minha própria estabilidade emocional. Então fui estremando a minha posição e ela nunca se superou. Sequer uma única vez. Não aguentava a pressão.
- A pressão? Não entendo.
- Ela é que chamava pressão ao facto de eu lhe exigir respostas.
- Bem, qualquer exigência cria pressão.
- De acordo, mas eu precisava de resolver o assunto e não arrastar a novela para sempre. É legitimo querer esclarecer a nossa relação. Sentia mesmo a necessidade de resolver a minha vida. Aliás, foi o doutor que estabeleceu como prioridade este assunto.
- É verdade. E digo-lhe que estou bastante feliz consigo. Por te-lo feito. É grande prova de força.
- Não vamos embandeirar em arco - aviso pertinentemente - Ela facilitou-me muito a coisa. Cada mensagem, cada conversa, cada resposta, acentuava mais a sua falta de carácter. Tudo o que me disse e me escreveu, afastou-me dela. Hoje em dia, ela é uma pessoa totalmente diferente. Não tem nada a ver com a mulher pela qual me apaixonei. Sequer reconheço algum aspecto nela que me cative actualmente.
- Compreendo... Mas na minha opinião, deveria ficar com alguns créditos por essa libertação.
- Olhe que eu estava a ver o caso mal parado. Tive muito medo de não o conseguir. Não sei se fui eu, se foi ela, se foi Deus ou o diabo... Nada sei. Mas a coisa esteve muito negra.
- Mesmo assim deve recolher alguns louros por esse passo.
- Acabo por recolher agora, que me sinto melhor.
Ai está ele a rabiscar qualquer coisa.
- Por favor prossiga.
- Uma coisa que me surpreendeu, foi que pouco tempo depois de terminarmos, senti-me logo... como dizer?
- Aliviado? - interrompeu.
- Sim. Fiquei aliviado. Soube muito bem conseguir respirar fundo e encaixar todas as peças.
- Soube bem arrumar a casa...
- Sim. Essa situação foi determinante para não ter momentos muito pesados ou recaídas... pelo menos até agora. Assumi uma posição muito recta. Meio espartano, meio estóico. Encaro isto com uma tremenda seriedade. Por exemplo: Apaguei os números de telefone, destruí cartas de amor, presentes, etc.
Mais um apontamento e continuo.
- Evito estar no mesmo sitio que ela, cruzar-me com ela nas suas novas rotinas, enfim... faço para que a coisa corra pacificamente, sem problemas.
- Mas não acha um pouco forte, o tom da separação? Estou a notar um certo extremismo nas acções. Não ficaram amigos?
- Eu até um certo ponto tentei. Confesso que não gosto de condicionar a minha vida por causa de terceiros.
- Sim pelo que conheço de si. Deve-lhe custar bastante, sendo como é - interrompe franzindo a testa.
- Mesmo muito - respondo com um sorriso.
- Mas não se afaste do tópico. Elabore um pouco mais sobre a separação.
- Eu quando me apercebi do desnorte dela, procurei assegurar a amizade. Já o tinha referido. Mas não foi possível. E nisso atribuo-lhe a totalidade da culpa, porque mentir-me compulsivamente era desnecessário. Não havia qualquer razão para entrar nesse tipo de espiral emocional negativa. Acho que chegou mesmo a terminar o namoro com o actual rapaz e tudo. No entanto a minha posição afectiva não estava assegurada. Eu não queria voltar a ela de qualquer maneira. Insegura como é, sentiu ali um salto no caminho de volta. Ela é rapariga que gosta de "transitar" com segurança.
Uma contagiante gargalhada vibra do outro lado da conversa.
- Desculpe, mas tem muita graça. Realmente é bastante comum nos dias que correm. Por favor.
Com um sorriso prossigo.
- No caso dela, é histórico. Sempre assim foi. Só sai dali quando tem certeza que tem "poiso" noutro lado. Ela não foi feita para estar sozinha - troço também um bocadinho.
Ele ainda ri e limpa uma lágrima.
- Por favor. Sabe que isto de imaginar estas situações, pode ser complicado. Eu também só o faço consigo porque sei que tem sentido de humor.
- Esteja a vontade. Que isto seja divertido para alguém - afirmo descontraidamente.
- Desculpe-me. Por favor. Faça o favor de continuar.
- São coisas que não posso controlar. Fiquei triste porque tenho um carinho especial por ela, mas os últimos dias, foram momentos de descontrolo total. Foram momentos muito feios: Discussões, guerras, ameaças. Nada mais podia fazer senão implodir a relação. Tive de o fazer assertivamente. Tive de ser agressivo. Deixar que o pior de mim resolvesse o problema. Daí levar tão a sério este período de tranquilidade.
- Compreendo. Então para si, esta pessoa pertence ao passado? Não se imagina a restabelecer contacto com ela?
- Não - respondo serenamente.
- Sabe que a vida dá muitas voltas? - pergunta-me nos olhos.
- Sei que não existem "nuncas"... Mas que também não existem "sempres"...
Recosto-me no divã e aprecio o silêncio que a minha frase deixou no ar.
Segundos passaram por olhares sérios, numa nova paz de respirar tranquilo.
Do outro lado um sorriso compreensivo acompanha-me até ao som.
Já adivinho o próximo tema de conversa.
- Então estando isto "arrumado", que mais o trouxe cá?
- Pois é doutor. Metei-me noutra.

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