Ferro Velho

Estaria rico com a quantidade de "ferro velho" com que me carregam todos os dias.
Fosse eu sucateiro.
Vendia ao peso a quantidade de patranhas que ouço há anos. Construiria uma fortuna porca.
É impressionante.
E para quê?
Ninguém sabe.

De qualquer forma existe algo que me diverte. Há algo de cómico no entulho.
Fascina-me a inconsciência do impostor.
Como é o próprio a perder a noção do que é real - sempre convicto e cínico - mentira atrás de mentira, até chegar a um embaraçoso silêncio.

Nos meus mais pacientes dias, assumo a minha posição e delicio-me com a historieta.
Acho graça e ali fico vibrando com a mirabolante construção que me estão a impingir.
Aceito o desrespeito com um sorriso e assumo a minha posição.
Não sou do tipo de acenar afirmativamente com a cabeça, ou desviar o olhar entre trejeitos  amarelados.
- Sim, sim, pois, pois.
Sou instigador. Sou publico. Um interessada audiência que incita o devaneio ao embusteiro.
Tenho um sádico prazer, em assistir ao contorcionismo de uma alma conturbada. Todos os movimentos errados, nos mais inoportunos momentos, até ao desgraçado embate com a realidade.

Eu assumo. Sou má pessoa.
Mas também ter de levar com isto, todos os dias, durante anos... custa.
Não nasci para sucateiro, mas tive de tirar o curso depressa.

E para quê?
Ninguém sabe.

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