Quentinho como o pijama da Estrudes

Ahhhhhhhh.
Como é bom deitar-me na minha cama e esticar-me até ao fim do mundo.

Lembro-me da minha lista.
Quase tudo foi riscado. Rasurado com muita força, para não haver dúvidas.
Quase.
Quase porque sou preguiçoso. Porque não gosto de levantar de manhã. Porque ainda tenho tempo.
- E se tudo correr bem, ainda vou a tempo.
Quase porque tenho a mania de nunca limpar o prato. É muito raro arear a louça com o último pedaço de pão.
Quase porque existem sempre restos. Sobra-me sempre alguma coisa.
Mesmo que seja obra do acaso, pura sorte ou graça divina.
Foi quase.
Mas se disponho de vantagem, porque a devo ignorar?

Este ano foi um milagre.
Quase que não conseguia.
Foi à justa.
Foi sempre a perder.

Recordo um tabuleiro de xadrez, onde cansado de perder, confrontei o senhor meu pai com a seguinte pergunta:
- Pai. Porque é que ganhas sempre?
Ele sorriu e respondeu muito calmamente.
- Para se ganhar, é preciso perder muitas vezes. E mesmo assim, ninguém ganha sempre.
Eu devia ter quatro ou cinco anos. Era pequenino... Mas já tinha construído a minha primeira obsessão. Estava dentro de mim.
Nasceu comigo.
Nasci amaldiçoado pela ideia de fazer o que ainda não foi feito. A ânsia de vencer sempre.
Uma coisa é certa.
Não me lembro de perder um jogo de xadrez desde então.
Recordo alguns empates, jogos complicados, mas derrotas não.

A culpa disto tudo é do meu pai.
Não é nada.
A culpa disto tudo é minha!
Há muito que jogo sozinho - Não admira que tenha endoidecido - Por maior que seja o esforço, não consigo ser "as brancas" e "as pretas" ao mesmo tempo.
Passei a vida a jogar contra mim mesmo. Empatando, uma e outra vez, até empatar um novo ou velho empate.
Serei sempre o meu maior inimigo.
Nem preciso de adversário. Nunca precisei.
É suicidio emocional.
A culpa é minha!
Está mais que provado.
Está documentado. Está estudado. Confirmado pelos melhores especialistas. Pelos piores também.
Está garantido que a culpa é minha.

Por mais que pense, não entendo porque faço isto a mim mesmo.

Parece bruxedo, mas não é... E se for, talvez nunca o venha a descobrir.
Se é, acompanha-me há muito tempo.

E há quem afirme, com o olhar mais sério do mundo, que é a única explicação.

Como não?
Sou perfeito.
Sou do contra. Um chato com retórica natural e instinto aguçado.
Tenho uma senhora consciência que se amantizou com a dor de pensar.
Poderes - que nunca revelarei - a coragem e o pior de mim, pronto a saltar cá para fora a cada confronto.
Um animal faminto, reactivo e impositivo, que nunca subestima o adversário.
Pior.
Aos caçadores furtivos que sonham com a minha extinção... Terão de dizimar o meu poderoso exército de salvação!
A gloriosa Realeza! A fina flor do Amor! A Elite!

Perdoem-me a arrogância, mas continuarei ardiloso.
Será difícil identificar onde acaba a realidade e começa a ficção. Destrinçar as personagens das pessoas reais.
Existem coisas que simplesmente não podem ser inventadas. Simplesmente acontecem.

Este ano foi um milagre.
Quase que não conseguia.
Foi à justa.
Foi sempre a perder.

Mas ainda estou quentinho.
Ainda sorrio feliz, com o coração cheio de calor.
Tal e qual como "o pijama da Estrudes".
Porque tudo o que aconteceu servirá um desígnio qualquer.
- Soa misterioso, mas as coisas funcionam assim.
Nos meus restos fico agradecido por ainda aqui estar. Contente por ter sobrevivido.
Abençoado.
(E há quem afirme, com o olhar mais sério do mundo, que é a única explicação.)
Como não?

Se este ano foi um milagre.
Quase que não conseguia.
Foi mesmo à justa.
Foi sempre a perder.

Já está.
Hoje deito-me quietinho, para amanhã riscar o resto da lista e deixar tudo arrumado.
Afinal vem ai o ano novo... e eu tenho tanto para fazer...
Mas desta vez à minha maneira.
Feliz e "quentinho como o pijama da Estrudes".


Comentários

Mensagens populares deste blogue

Dinosaur Love by Harry Baker

O que é ser rude?

A Dieta - 1 - Abotoar é um verbo sério