O Divã - VII - A recaída



Acordo a meio da noite sobressaltado.
Irado.
Com vontade de mandar tudo à merda.
Sedento de acção. Que algo aconteça.
Parece que estou morto e que já nada sinto.

Arranco da cama num salto em busca das pantufas.
(Odeio estas pantufas. Ainda não percebi porque ainda não comprei umas de jeito.)
Desde pequeno que caminho pela casa no escuro. Vou espreitando os medos e lembrando-me dos filmes de terror. Estou sempre à espera que me apareça um fantasma, um espirito, uma aparição divina, alguma coisa que mate de susto repentinamente.
Mas não desisto.
Lá vou eu às cegas, tacteando paredes e maçanetas, pé ante pé, muito devagar.
Silencioso como um ninja.
(Eu sempre gostei de ninjas. Se houvesse um curso de ninjas, tinha-me candidatado.)
E custa.
Faz frio que dói.
Ele é húmido. Daqueles lixados que se entranham nos ossos.
Mas um ninja não teme e daqui até ao frigorifico são dezoito passos.
O meu objectivo é atingindo.
Da luz retiro um iogurte com aroma a morango. Daqueles bem doces.
(Só para acalmar ânsias.)
Em seguida busco a colher - que isso de beber iogurtes líquidos é para maricas - e venho para a janela larga, devorar o lacticínio.

Na rua as estrelas brilham para ninguém.
Brilharam para mim há pouco, quando vagabundei erroneamente.
Desorientado.
Esperando sei lá o quê.
Quem eu queria, não apareceu!
(Nunca aparece.)
Não é capaz de me vir dar um abraço!
Mente, volta a mentir, mas eu acredito sempre!
Acredito com todas as forças que me restam, que aparecerá.
Que está a caminho.
Que vai mandar mensagem.
Que ainda gosta de mim.

Mas não.
Ignora-me.
Caga para mim.
Sempre da pior maneira possível.
Mesmo para me magoar o mais que consiga.
E consegue.
Puta do caralho.
Uma pega de merda estúpida e reles. Uma rafeira. Uma atrasada sem um pingo de caracter ou compaixão.
O exemplo perfeito de tudo o que há de mal na raça humana.
Aquela vaca.
Aquela rameira drogada.
Aquela fingida, consegue e faz questão de me deixar completamente fora de mim.
Variado.
Possuído de todo.

E eu deixo!

Aaaaaaahhhhhhhhhhhhhhh!
Que nervos!
Chapo com a colher no lava louça, e arranco casa fora à biqueirada a tudo.
"Puta de merda! Como é que eu deixei que isto chegasse aqui?"
Por mais desculpas e cúmplices que arranje, esta merda só tem dois culpados: Eu e Ela.

Em pleno ataque de fúria lembro-me do divã.
A isto é que o paneleiro do meu terapeuta chama de recaída.
(Ele diz que é normal que de vez em quando me salte a tampa. É defeito de fabrico! Que apesar do meu enorme esforço e progresso, as coisas não se mudam de um dia para o outro. É um processo longo e penoso. Que apesar de existirem fortes probabilidades deste este tipo de situações, acontecerem ocasionalmente, diz que não me devo preocupar. Diz que estou no bom caminho. Que sou notoriamente corajoso, pela maneira como tenho frontalmente abordado a minha transformação.)
- Paneleirices! - penso eu à procura dos cigarros.

Foda-se.
Merda pa isto.
Só me apetece é rebentar com tudo. Derreter o Mundo.
Partir a murro e pontapé o que restar.
Até sangrar.
Até cair para o lado exausto.
Até... eu sei lá...
Estas merdas deixam-me cego de raiva.
Fico completamente louco.
Doente.
Demente.
Descontrolado.
Desequilibrado.

Não há droga nenhuma que me roube o pensamento de tamanha humilhação.
Por mais comprimidos que tome, por mais venenos que meta para dentro do meu corpo, nada me devolve a paz à alma.
É desesperante.

É tudo o que não quero ser!

Exaurido, caminho de um lado para o outro até a lucidez da desgraça me consumir.
A desgraça de nada ser.
O fado de acreditar.
A dor de pensar.
E o medo de não ter na minha vida mais Verão.

O cinzeiro está cheio. Pesado por ter nele tantas emoções.
Orgulhoso por ser o cemitério de tanta cólera.
Frenético por nele depositar, os restos de mais um majestoso festim de insensatez.

Num ápice, o cérebro dispara uma bala de gelo, acertando-me mesmo no fundo do peito.
"Devia parar de me agredir desta maneira!"
"Devia me deitar!"

É nesta altura que faço como todos os que estão à minha volta.
Desisto.
A subtil arte da desistência.
(Eu que nunca desisto. Eu que nem o sei desistir. Eu que nem sei bem como o farei.)

Desisto!

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