quarta-feira, outubro 09, 2013

Porno Amor e Xungaria - 4

Tem cuidado com o que desejas.

- Então? Como estás?

Muitas vezes não estou.
Simplesmente não me aguento.
Não me suporto.
Fico impossível de aturar.

Assim que fico sozinho "ponho-me" em modo de espera. Segurando o telefone com a cabeça contra o ombro.
A ouvir mil vezes uma musiquinha de merda, de uma banda rasca qualquer, que ninguém conhece, mas certamente virá a um festival de verão cheio de entulho.
- É o pacote. Venda por atacado. Ferro velho -
Assim que fico sozinho.
Naquele instante.
Impossível de aturar.

Chega a altura de fazer a cura com punkrock - São machezas minhas - Um álbum puro. Daqueles mais míticos geralmente faz o truque.
Arranco sem plano.
- Porque nasci assim e a mania de ser livre corre-me nas veias -
É sem destino.
Tenho pontos de passagem, mas não faço ideia de onde, com quem e em que estado vou acabar a noite.
Apenas apareço e espero que alguém me convide para fazer algo realmente estúpido.
- É só atinar no desatino. Fácil! Fazer o que toda a gente faz -

Contudo.
Há que ter cuidado com o que se deseja.

Há dias arranquei para um karaoke manhoso com uns amigos.
O habitual. Umas mamas dentro de um vestido vermelho oficial de puta, acabada de ser judiada por uma cabeleireira de mal gosto, a cantar os Jardins Proibidos, nos intervalos daquelas "brasileiradas" xungosas para abanar a peida.
(As poderosas, as fogosas, as piradinhas, as que rebolam, as que são de top, popozudas, que desfilam, as que ficam loucas com dedos na boca, que querem ser "pegadas", as que matam o pai, as "funkeiras", etc.)
Lá estou eu.
Dou por mim "na balada". no meio de aquilo, "vendo todo o mundo tirando o pé do chão", e "perdendo a linha". Minutos depois, duas ou três "gatinhas assanhadas", me "estão olhando" pensando que eu sou um "pegador, namorador, que me chamam de safado" e eu quietinho, com "uma gelada" na mão, só pensando "ocês tão querendo o quê?"
Felizmente há sempre quem goste intervalar estes momento de erudição, com as animadas baladas do nosso cancioneiro.
Não há como evitar as actuações das Dulces Pontes, Adelaides Ferreira e Ritas Guerra, locais. Estas são engraçadas, porque as artistas, desconhecem o conceito de "desafinação" - Que explico muito rapidamente - Estão a ver o som de um gato esquizofrénico durante o cio a brigar?  Vocês devem afastar-se desse registo.
"Levanta o vestido". "Danza Kuduro", "Suavemente" e eu prometo a mim mesmo, que se ouço mais um acordeão "sertanejante" dou um tiro nos cornos.
Se não fosse cá por coisas, até interrompia o evento e explicava às moças, que a estupidez, a vulgaridade e o "vaquedo" são como o crime - Simplesmente, não compensa.
(Enfim.)
Devo aligeirar.
Acalmar-me.
Afinal de contas ando em terapia para ser uma pessoa "mais completa", "mais resolvida", "mais inteira". Repousar a mente. Não ligar tanto ao que o instinto me diz. Devo aprender a dosear melhor a intensidade nos meus contactos sociais ou emocionais - e escrevo isto com um sorriso de todo o tamanho.
Conclusão: Embebedei-me!
Copos seguiram copos e até chegarmos à paneleirice do Gin. (Sim estes Gins "modernos" são uma mariquice... Mas do tipo ter brinco na orelha direita. Não me refiro aos "tipos" que fazem depilação no nível "perna completa".)
Como tenho "bom vinho", a coisa começou a compor-se, e não há nada como mudar de capela para agradar aos vários santos.

Mesmo com a benção divina, o que começa mal, tem tendência a ir piorando.
Minutos passados, estava numa festa cheia de estrangeirada de beleza e estilo duvidoso, onde um puto um norueguês de cabelo comprido, vivia os seus 15 minutos de fama, tentando tocar o Raining Blood de Slayer.
Obviamente aquela missa não era para mim e segui peregrinação resignado.
( Só para avisar que essa malta do metal - e muito especificamente - os lá de cima dos países ricos e civilizados - mas onde não se toma banho assim tantas vezes como cá - tem a mania de largar o fogo a tudo o que tem cruzes. Se querem que haja procissão para o ano, olho nele, que essa gente não é certa.)

Nitidamente a solução para tanto aborrecimento passava por beber mais Gin. Às duas por três estou às escuras dentro de um carro com um copo na mão enquanto um amigo me pergunta:
- Então migo? Como estás?
- 'Tou melhor! Agora já estou um bocadinho melhor.
- Desculpa por não ter aparecido a semana passada mas bla bla bla, tal e coise... E meteram-se uma cenas... E já sabes que agora bla bla bla. É que o bla bla bla do bla bla não me deixa muito bla bla bla.
O rapaz está em loop. Num fade out progressivo. O som parece ser sempre o mesmo, baixando muito lentamente até eu ouvir a noite.
Calma fria e linda como o Outono me acostumou.
(Deve ser dos copos).
- Então faz ai uma nota! - diz-me despachado.
(Eu enrolo 5€ dos novos e não encontro fonema ou interjeição para o som que fizemos a seguir).
O som volta de repente.
- As gajas são mesmo assim. Eu já passei por isso. Acho que toda a gente já passou por isso. Eu sei que é fodido mas tens de cagar nisso. Mas é na boa.
(É na boa. Afinal quem arranjou isto foi "não sei quem" que adora o "não sei quantos" e que tem "cena" de grande qualidade, por "não sei quanto" e "não sei o que mais".)
- Mas é na boa.

É na boa porque agora todos são xungas.
O próprio conceito de Xungaria morreu.
Sendo normal, quão xunga se tem de ser, para para que uma pessoa comum ganhe vergonha na cara?

Isto da Xungaria até pode ser querido. Há xungas sensíveis. Xunguices de Amor.
A conselho de um amigo e prevenindo-se contra um eventual problema de ejaculação precoce, um rapaz ingeriu uma droga qualquer - Daquelas das letras e siglas, que a malta da música electrónica gosta muito - apenas para certificar a sua durabilidade durante o coito. Questões de performance.
E conseguiu.
Isto tem o seu valor... Mas no fundo é imbecilidade gigantesca e a prova de que os cérebros não se podem comprar.

Continuando.
Era eu que precisava de falar mas soube-me muito melhor ouvir.
É o bom de ter amigos de verdade.
Existe algo de belo, quando a pureza de dois estados de alma distantes, se fundem num só.

A conversa alastrou a mais experiências e partilhas.
Trocaram-se cigarros e palavras sem tempo. Sempre até ser tarde demais para ir para casa com aqueles sentimentos tão presentes.
(Aqui é que a porca torce o rabo.)
Existe sempre alguém - mas sempre - que tem uma ideia parva e descabida para a próxima romaria, mas que curiosamente é aprovada por unanimidade.
- Então vamos. É agora.
- Vá 'bora.
A meio caminho ainda tive a lucidez de perguntar:
- Mas o que é que vamos p´ra lá fazer a esta hora?
A resposta chega com sorrisos e divertidos encolher de ombros.
Ninguém sabe ou quer saber.
É a hora das fomes. Dos desassossegos. Se pudéssemos voaríamos para chegar mais depressa.

O problema foi a dura aterragem numa pista de dança que mais parecia um matadouro de identidades.
Poderia haver mais Xungaria reunida numa pseudo festa?
Quero acreditar que não.
Preciso acreditar que não.
Deve ter sido do meu estado menos próprio. Efeitos colaterais do Vicks inhaler. Quando o "monstro" se apodera de mim, não há nada que me consiga desentupir a cabeça.
(E o cerebro dispara.)
- Mas que merda é esta? Mas o que é que faço aqui?
Para me certificar da realidade da questão perguntei a uma barmaid mais normalzinha.
- Onde é que estamos?
Sorridente, respondeu cordialmente.
O meu instinto de auto preservação esqueceu o nome da localidade no segundo seguinte e virei costas ao balcão.
Masoquistamente voltei a passar a mente por toda aquele vazio.
"Será isto música? Serão estes seres pessoas pensantes? Quando é que o mundo se tornou isto?"
Assumindo a derrota, retirei-me do espaço na esperança de esquecer que a Xungaria tinha triunfado sobre os exércitos da inteligência.
"Farei como os grandes revolucionários do século XX. Refugiarei-me nas montanhas, com um ideal no coração e iniciarei um movimento de guerrilha."

Passado uns minutos, foi arrastado dali para fora pelo resto do pelotão, que me depositaram são e salvo em casa.
Deitei-me na cama totalmente exausto e cometi o erro crasso de fechar os olhos por um segundo.
Foi fatal.
Felinamente salto da cama, tendo apenas tempo de me apoiar na porta do guarda fatos, regurgitei violentamente toda aquela noite.
Como se de um exorcismo se tratasse.

Agora, no chão do meu quarto, tenho um tapete com uma imponente e orgulhosa família de leões.
Foi o que a minha desgostosa mãe conseguiu arranjar à pressa, para eu não ficar com os pezinhos frios, quando me levantasse do meu vergonhoso leito.


N.A - E eu sei muito bem que xungaria se escreve com CH, mas toda a gente diz a palavra com X.

Morte à Xungaria.



















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