Porno Amor e Xungaria - 15

Nem sei por onde acabar.

Nem sei por onde acabar...
Talvez pelo futuro?
Talvez nunca acabe.
Isso são coisas para o Tempo responder.
Se lhe apetecer.
E nem sempre lhe apetece.

Eu dou-me mal com o Tempo. Acho que ele é um filho da puta à antiga!
É pequeno, dançarino e velhaco.
Um batoteiro de primeira.
Nunca me deixa ganhar.
(Nem a mim nem a ninguém.)
Simplesmente altera as regras do jogo a seu belo prazer.
E deixa-me sempre com a estranha sensação de desejar tarde demais!

Fico frustrado.
Fico sedento.
Às duas por três, já não sei o que devo beber para matar tamanha sede.

Para mim é esquisito saber conjugar todos os tempos verbais, mas não os saber identificar!

Aí escolho.
(Nem sempre bem)
Decido-me por qualquer coisa e experimento tudo!
Literalmente.
É que tenho pavor à dormência.
Sou o que sou e há muito que desisti de pedir desculpas por isso.
(Há quem lhe chame arrogância ou orgulho ou outra merda qualquer.)
Prefiro arrepender-me.
Mil vezes arrepender-me.
É sinal que ainda acredito em alguma coisa.
Que estou vivo.
Que sinto.

Mas há quem prefira outro caminho.
Há quem não acredite.
Há quem prefira conforto, estabilidade e segurança!
(Tenho a perfeita noção, que existe uma data de gente chata no Mundo.)
E essa malta que muda sempre para pior.

Rapaziada.
Vai chegar um momento - no meio de uma discussão ou num simples momento rotineiro - onde vão dar com vossa mulher, a olhar para vocês de um modo estranho. É nesse momento que sentirão algo que jamais sentiram antes. Algo esquisito. Ela lá estará, com uma expressão vazia e baça olhando a vossa carantonha, segundos demais.
Ao resultado do vosso desconforto vocês perguntarão:
- Que foi?
- Nada - responderá ela muito displicentemente voltando a cara e continuando o que estava a fazer antes.
É esse o momento!
É ai que vocês descobrem que não foram a primeira escolha dela.
A primeira escolha dela, era o outro gajo.
Aquele de quem ela não gosta de falar. Aquele que sempre vos intrigou mais. Aquele que foi menos adjectivado.
Aquele tipo.
Esse mesmo.

Elas mudam sempre para pior!

E ele não era grande espingarda. Era apenas o que vocês nunca poderão ser.
Era fascinante.
E nunca lhe ofereceu flores.
Nem jantares. Nem prendas por ai além.
Nunca foi com ela à praia. Nem férias. Nem a pôs num pedestal.
E se calhar... mas só se calhar... Nunca lhe deu o devido valor.
Ele nunca soube o que quis, sequer sentiu necessidade de lhe oferecer mais alguma coisa, para alem dele mesmo.
(Se calhar ela também não merecia mais.)
Amiguinhos:
Vocês são uma invenção!
Um recurso.
Uma desistência.

E mais.
Ela entregou-se completamente a ele.
Ela marcou-o.
Ela sabe-o!
Ela leva-o no coração, bem escondido. Um prazer só dela. Uma memória sublime.
Ela marcou-o muito.
E ela sabe-o!
Ela ensinou-lhe muitas coisas. E ofereceu-lhe outras mais, que o outro já não vê ou sente.
Mas ela sabe-o!
Não há escuridão que os faça desaparecer.
Mesmo que queiram!
Mesmo que queiram muito!
(E tudo isto vem nos livros.)
Ela foi a sua musa.
Ela foi tudo para ele.
E ela sabe-o!

Querem tirar teimas?
Foram escolhidos? Algum vez sentiram que ela vos preferiu em detrimento de outro gajo?
Sabem quem era o outro gajo?
Adivinhem...

Sabem como funciona esta merda do Amor?
Estas coisas não se escolhem.
Não é suposto.

Nem imposto!

Ahhh
Mas com o vosso mal posso eu bem.
Tenho outros afazeres.
Tenho de me vender. Ser pop. Cumprir o destino de um prezado punkrocker.
Tenho de ir brigar com o Tempo.
Mais uma vez e sem luvas.
Numa luta onde vale tudo.
Arrumar o que fui e decidir o que quero ser.
(A minha terapeuta diz que é normal nas pessoas da minha idade, com a minha tipologia)
- Sim porque afinal, até eu tenho uma tipologia!

O impacto da descoberta é duro.

Eu que nem sabia que estava perdido.
Só me apercebi da minha condição, quando achei novos caminhos.
- Mas o que é que andei a fazer durante este tempo todo?

Sinto-me exausto.
A recuperar o fôlego, com os braços na borda do poço.
Sairei em breve.
Muito em breve.
Apenas preciso de respirar mais uma vez. Habituar-me a luz do sol.
Sinto gente a aproximar-se.
Vêm calmos e sorridentes, aquecendo-me o coração.
- Chegou a cavalaria.
Com mãos fortes e de uma só vez, puxam-me para fora do buraco. Sinto as pernas arranhadas pelo cimento, mas não sinto dor.
Ai estão eles, cheios de gracinhas e de Amor!
Sentam-se no chão em meu redor, abrem espaço para estender o meu corpo dorido, e ali fielmente me guardam, até me conseguir levantar.

Deitado num sofá, tapado por uma manta antiga, terei esta conversa.
 
- Então porque não me sinto triunfante por ter saído do poço? - questiono com o olhar no infinito.
- Não sei. Se calhar não o fizeste da forma que querias? Provavelmente querias sair do poço de outra maneira.
- Se calhar... Ou então, porque sei que existe sempre outro buraco. - interrompo calmamente.
- Mas isso é mesmo assim. Existem sempre mais poços. E à medida que o tempo passa, serão cada vez mais fundos. Tens de aprender. Tens de os contornar. Até os podes espreitar, olhar lá para dentro, mas um dia saberás como passar ao lado dessas situações.
- Saber que há sempre mais um poço, basta-me! É uma merda!
- Isso é o que se chama viver.
- Eu sei... É uma questão de controlo! Tenho a mania de querer controlar tudo.
- Ninguém controla tudo! - dizes enquanto me fazes chegar o cinzeiro.
- Bem sei. E não te deves esquecer do problema com o meu ego?
Olho para ti sorrindo.
Tu devolves o momento.
- Sim... Claro que sim. Mas ai a culpa não é só tua. Tens à tua volta muita gente que te vai massajando o ego.
Páras um segundo.
- Eu gosto desta expressão. "Massajar o ego".
E retomas a sentença
- Ali os tens de volta do menino. Do príncepezinho. - troças gesticulando com as mãos.
Respondo espirituosamente.
- Como queres que domine o meu ego, quando te tenho a ti?
(Golpe.)
Olhas para o lado e desvias-me do teu melhor sorriso.
- Essa também é boa. - respondes com postura - Vês. Não és humilde. Mas porque não podes apenas ter tido sorte? - perguntas muito contente.
Acho-te cada vez mais graça.
Assumindo tu a tua raridade, como posso eu ser humilde?  
Pretendentes nunca te faltaram.
Para mim é "selecção natural".
- Diz lá? - insistes.
- Ao pé de ti não posso. Mesmo neste estado sou bastante - respondo trocista - É uma questão de tempo. Não me posso por com máscaras e salamaleques. Tenho demasiado medo de morrer e de deixar coisas por fazer.
- Oh querido... Ja te disse. Enquanto estiveres comigo nada te acontece.
- Mas nunca fiando pequena... Nunca fiando...
- Eu acho que devíamos morrer novos. Enquanto somos bonitos. - voltas a brincar.
- Penso o contrario linda. Eu não quero isso para mim. Quero fazer e viver até ficar velhinho. Para depois fazer como os antigos fazem. Querer apenas viver mais um dia e contemplar tudo isto mais uma vez!
Com a tua maior doçura, agarras-me o braço suavemente. De voz limpa me dizes muito calmamente:
- Vais fazer isso tudo e viver mais dois dias. Um por ti e outro por mim.

O Amor vence sempre!

n.a - Este foi o último "post" da saga "PORNO AMOR e XUNGARIA". Para mim foi um prazer enorme escrever e partilhar convosco durante as ultimas três semanas, todo este turbilhão. Quinze momentos dos mais puros que consegui escrever. Coisas de gente doida. Foi uma oportunidade de experimentar novos estilos, brincar com a escrita, de me preparar para novos desafios, prestar homenagens, mas também de fazer terapia. Foi uma cura. Um ensaio sobre a verdade. Um exercício emocional denso e pesado, que nunca esquecerei.
A todos os que o leram. Muito obrigado e até breve.



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