Porno Amor e Xungaria - 10

Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és.

Eu avisei.
"Tem cuidado com as companhias".
Desculpa, mas ao mesmo tempo, não consigo parar de rir.
Eu sei que te irrita... mas não me contenho. Não aguento. É demasiado típico.
- Prometo que tentarei comportar-me devidamente.

Porém deves concordar comigo - nem que seja bem lá no fundo - que a velocidade com que as coisas mudaram, sugerem uma grande falta de elegância.
- Sugerir não é bem o verbo. Talvez "demonstrar".
Por maior que seja o teu lado sujo e maltrapilho, nunca irias atingir tamanha dimensão sem ajuda.
Conheço-te.
Sei que não caças. Esse não é o teu desporto.
- Tu és mais Bambi.
Não é da tua natureza criar tamanha confusão.
Sabes que sofres quando perderes o controlo do teu famoso desassossego. As ondas bravias de emoções, espetam contigo nas rochas. É dor a mais, para tão fragil ser.
- E sabe-lo por experiência própria.

Alguém te mostrou "como se faz".
Alguém com experiência de guerrilha.
Numa espécie de treino intensivo, fundamentalista e ideologicamente suportado.
- De que outra maneira se pode explicar tanto ataque e fuga? Tanto jogo duplo? Triplo até.
E que melhor recruta que uma pessoa perdida, desenraizada, frustada com a própria vida?
É uma questão de identificação.
Dinâmicas de manada.
- Sociologia pura e documentários do National Geographic.
Estando eu longe da vista, que melhor inspiração que outra alma atormentada?

Eu que fui o teu escritor favorito.
Acabei trocado por um bando de imberbes plagiadores de frases de facebook. Preferiste novelísticos clichês, cheios de verdades absolutas e sentenças de morte. Esses que tão católicamente apontam o dedo, julgando sob o seu próprio desígnio. Gente que escabrosamente encontra na tua infelicidade, o mais sórdido dos confortos.
(É menos uma coisa para invejar. É a raça dessa gente.)
- Soubessem eles da verdade...
Mesmo sabendo da tua ingenuidade e do teu duvidoso gosto, escusavas de ser tão pindérica.
- Chega a ser kitsch.

Sei-o porque depois de tanto me vulgarizares lá te escapou:
- És a excepção à regra.

Sentido e conformado, rio-me para não chorar.
Divirto-me porque te imagino a bufar, mexendo no cabelo nervosamente, desviando o teu olhar do meu.
Sempre com o corpo numa posição esquisita. Evitando que ele te denuncie ainda mais.
Tentando pensar em alguma coisa, que te desvie dos ouvidos, as palavras que entram bem para o fundo do teu cérebro.
Rezando para não acreditar.
Desviando a conversa para assuntos paralelos, que nada têm a ver, com os versos que te deixo no peito.
- Pudesses tu fechar esse coração.

Mas não podes.

Por mais que fujas e vidas que inventes. Por mais que esperneies e que grites.
Não podes.
Lamento informar-te, mas ao contrário do que os antigos dizem, uma mentira repetida mil vezes nunca chegará a ser verdade.
- Até eu já tentei. Aliás, melhores que eu tentaram e não tiveram sucesso.
E não há nada de triunfal nisto.
Só dor.
Nem tempo que a cure.
- Diz novamente a experiência.

Mas não podes.
Tem de ser de outra maneira.

Pára de fugir!
Não adianta dizeres que "falamos amanhã", ou "conversamos depois". Por mais que te custe falares comigo é a única maneira de resolvermos isto.
- Eu preciso de resolver isto. Não quero pontas soltas. Fazes parte da minha cura. Não preciso de outra tatuagem. São muitos anos desta merda. Tenho mais que fazer que passar a vida a gostar de ti.

E vais respondendo na confusão do costume.
"Um dia falamos e ficamos amigos. Quando conseguir."
"Já não me reconheço. Já não sei quem sou nem o que quero."
"Quero que me esqueças e não quero ouvir mais nada. Só fico pior. Não me faz bem. Não quero falar contigo. Deixa-me seguir a minha vida."
"Fomos os dois culpados. Eu sempre quis demasiadas coisas, sonhei demais e não me soube por no meu lugar. Resta-me ser uma miúda simples como sempre fui. Tentei ser mais, cheguei a acreditar que o era, mas parece que me enganei. E também não há mal em querer menos. Se calhar desejei mais do que queria e podia."
"Vou ver o que resta de mim. Nem sei o que pensar."
Eu com a minha - até agora desconhecida - paciência de Jó, depois de acalmar a fera, ainda tenho de ouvir olhos nos olhos
"Gosto tanto de ti. Se imaginasses o que gosto de ti. Eu odeio-te por te amar tanto."
(É impressão minha ou ela está doidinha de todo?)
Se calhar são aquelas coisas de gaja que nenhum homem compreende.

Então falamos, em território neutro e com tempo contado.
- Mas gostas de mim?
- Sim, gosto muito de ti - respondes
- Mas tu não tens namorado?
- Ele não é meu namorado. Simplesmente não nos escondemos.
- E amas o rapaz?
- Não! - Dizes com a frieza dos tiranos.
- Então porque estás com ele?
- Não sei. Por nada. Que te interessa isso? Não tens nada a ver com isso.
Estás completamente fora de ti, mas insisto até fazer ferida.
- E porquê quer ser menos? Porque desistes dos teus sonhos? Porque deixaste de acreditar em ti?
- Porque queres que seja mais? O que te interessa isso agora?
Eu respondo:
- Eu acredito em ti. No teu potencial. Conheço-te. Não quero ficar assim contigo. Quero paz. Quero que contes comigo. Quero redimir-me por todo o mal que te fiz. Quero ter contigo uma relação verdadeira e pura, como nunca tivemos antes. Porque estaria aqui a sujeitar-me a esta conversa? Achas que é fácil para mim?
Do teu lado só silêncio e prossigo o monólogo.
- Eu necessito de uma solução. De estar bem contigo. De falarmos de vez em quando. De sermos amigos.
Começas a roer o lábio.
- Eu não me vou meter em nada. Não me intrometerei na relação que tens com o outro miúdo. Eu nem tenho nada contra ele. Nem contra ti. Se tivesse mau fundo imagina só as coisas que podia fazer.
Começas a lembrar-te. São tantas que nem contas consegues fazer. Sequer te dou tempo para chegar a um número e contínuo.
- Não te quero para mim. Já não consigo. Estou incapaz de te tocar. Ainda achas que te desejo?
- Acho. - Respondes arrogantemente - Tu ainda me desejas.
Bem no fundo do que resta dos teus olhos, te respondo com toda a certeza. Com a voz firme e muito calmamente.
- Não. Já não sou capaz.
Sinto-te a ficar mais pequena. Mesmo me custando o Mundo. Sabendo que a verdade te magoará, desfiro o golpe final.
- É a história do Santuário. Ele já não existe.
Sopras, gaguejas e suspiras com fúria.
Apanhas os cacos, viras costas e partes apressadamente para o teu canto, sem te despedires.
(Sempre muito mal educada.)
Mas sempre.

Eu levo o meu tempo.
Com o peito aliviado, olho a paisagem. Está um belíssimo final de dia de Outono. Todas as cores do céu, embaladas por um vento morno.
Que belo calmante!
Sem nervos, nem cigarros, até a noite chegar com as suas perguntas.
"Será que lhe ficou alguma coisa naquela cabeça? Será que ela percebeu?"

Depois destas duas, outras vão chegando.
"Mas porque é que ficaste lixada?"
"Que digo eu que te enerve assim tanto?"
"Que faço eu para que não consigas suportar um simples conversa comigo?"
Mais três se acercam de repente.
"Para quê tanta invenção já inventada?"
"Porquê tanta mentira e deslealdade?"
"Porque haverás tu de desistir dos teus sonhos?"
E uma grande para arrematar
"Por raio de carga de água é que não me respondes a estas merdas?"
Foda-se.
Mas custa assim tanto?

Valerá a pena perderes a identidade só para estares acompanhada?
(Mal acompanhada.)
Por pessoas que há dois meses desprezavas.
Fartavas-te de dizer mal.
Julgavas a sua pobreza de espirito. De como era ridículo o funcionamento desses grupinhos de Xungaria. Como eram vazios e tristes. Como te sentias mal nas suas conversas e interesses. Como abominavas tamanho fluxo de banalidades. Que não te identificavas com tais valores, criticando veementemente quem se aproximava dessa "gentinha".
Hoje pousas com eles, usando o teu sorriso mais falso, para uma fotografia forçada, num pardieiro qualquer.

Tudo por uma fuga à tua realidade.
De onde vem esse súbito fascínio da vulgaridade?
Porque não assumes a tua desconformidade?
(Conheço-te. Sei que ela existe. Sei que está lá.)
A diferença é um posto com custos e responsabilidades. Uma condição natural.
Não pode ser forçada.
É na diversidade que está a riqueza do espirito. Lidar com tudo isto exige tempo, e é difícil, mas a recompensa é sublime.
É uma benção.
Porque haveria alguém de a renegar?
Em nome do quê?
É fenómeno que não compreendo.

Foi demasiado rápido.

Bem sei que contigo toda a psicologia é inversa.
Estas linhas em nada te vão ajudar. Este alerta terá o efeito de extremar a tua posição.
- A tua infantilidade assim o deseja.
Aposto que vais fazer finca-pé e redobrar o empenho na tua "causa".
Faço-o porque nos teus momentos de lucidez, contactas-me, e deixas escapar toda a mágoa que a tua nova vida te trás.
Assumes a derrota do teu sonho, não te reconheces no espelho, e por mais mais luz que esteja à tua volta, nada em ti brilha.
Pior.
Sabes que nada disto, foi ideia tua.


n.a - Para a semana serão publicados os últimos cinco textos da série "Porno Amor e Xungaria". Serão bombásticos.




 



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