domingo, outubro 06, 2013

Porno Amor e Xungaria - 1

A história de um homem morto

Ninguém mais o pode contar.
Bastava que existisse um monge piedoso, de escrita fácil e tempo longo.
Um homem de Deus.
(Daqueles que se tornaram Santos.)

Mas não existiu.

Esta é daquelas histórias, que só os mortos podem contar.

Numa noite de luar, juraste que eras princesa.
Sem castelo ou realeza, mas com verdade e a certeza, de o seres desde nascença.
Juraste o teu encanto, o final do eterno pranto por um príncipe de verdade.
Ofereceste-me sorrisos e sabores. Prazeres e perfumes. Repentes e calores. Cantigas de Amor, sem queixumes.
Tudo o que pudesse em mim ficar.
E mais noites se seguiram, até se tornarem dias, até fazer do impar... par.

Eu que só feitiços queria, de magia e alegria como podia recusar? Apesar de prometido, mal tratado e meio torcido, tinha sempre de arriscar.
Me deixei levar a medo.
Fraco por não ser cedo, para voltar amar.
Então.
Fiz-me acompanhar do segredo, construindo tamanho enredo, que o Diabo não conseguiria superar.

Mas tu tinhas um lado negro. Ambição para o que não merecias.
Havia qualquer coisa que dentro de ti que te diminuía.
A fome de ter um trono, ser senhora de quem não tem dono, era o que te consumia.
E toda a corte foi culpada, julgada e mal amada por não teres lá posição.
Todos te fizeram confusão.
Mas todos.
Até os teus.

O meu Amor não te chegava.
Sem casamento não podias reinar. Viver o teu conto de fadas.
Subir o ultimo degrau.
Não entendeste que o tempo, dá-nos sempre aquele momento, só para nos fazer crescer.
Não podias mais esperar. Não conseguiste alcançar que a noite acaba sempre.
Aproveitando as minhas aventuras, convocaste as tuas bruxas, cozinhando mil venenos.
Pragas para todos os terrenos.

Cega pela vingança e desprezando o nosso único tratado, lá deixaste apunhalado o meu fiel escudeiro.
Que mesmo usado e enganado, gritou-me em pasmado silêncio, a tua primeira traição.
Ora o que podia eu esperar de ti dai em diante?
Tu que só tinhas de me dizer a verdade.
A única coisa que alguma vez te pedi.
A verdade e nada mais.
Nada menos.
Só isto.
A verdade.
Como podia esquecer tamanha má fé? Como lidar com tão vil perfídia? Como confiar em ti depois de teres agido tão aleivosamente?
A resposta foi dada à chegada.
- Com Amor.

O tempo correu e a dor foi passando.
Fui tolerante.
Com pose e calma, fui me agarrando aos momentos bons que partilhávamos. Fechei os olhos. Quis acreditar que um dia desistirias da vulgaridade. Talvez o apelo natural que tens ao sórdido se desvanecesse. Haveria de chegar o momento de voltarmos às luz e esquecermos as trevas.
Meses passaram, anos continuaram. Sempre que surgia uma contrariedade, soube que resolveria a quezília com a força da mais pura e sentida paixão.  
Mas o Amor nunca te bastou.

E a quem não basta o Amor não basta a vida!

A verdade é que o monstro dentro de ti, continuava acordado.
Ganhava força com o passar do tempo.
Cansada de tanta espera. Todo o mal da tua raça começou a vir ao de cima. Tomou conta de ti.
Crescente. Exigente. Cada vez mais impositivo. Invejoso e voraz, como se de uma doença se tratasse.

Tomada pela descrença e pela maldade, adquiriste novos estratagemas. Veio a fuga, a manipulação, a mentira, a falsidade e a mesquinhez.
Embalada pelas infames companhias, sucumbiste a intrigas.
Culpa dessas carpideiras interesseiras e manchadas pelo desgosto, de se sentirem menos vivas que tu. Essas que preferiram que voltasses ao rebanho. Essas que nunca saberão o que é o Amor. Essas que insistem em te empobrecer o espirito, apenas para fortalecerem através de números ridículos, ilusões de crianças imbecis.
Ao descontrolo chegou tua natureza.
E desde que assumiste a tua natureza, não cumpriste uma promessa.    
Uma única.

A verdade é que com tudo isto, desististe de ser a minha rainha.

Eu senti-o.
Logo te perguntei porquê.
Na verdade sentia-me cada vez mais próximo de ti.
A verdade - e só porque apenas conseguia dizer a verdade - é que nunca te quis tanto como nessa altura.
A verdade - e só porque conseguia adormecer sentindo a verdade - é que sentia que o Amor iria vencer todas essas trivilialidades. Tudo o que fosse banal e comum.
Estaríamos tão alto, tão felizes, tão plenos que nada nos atingiria.
Não to disse.
Fiquei à espera da tua resposta.
Mas tu não respondeste.

Na altura não percebi. Nunca esperei o que vinha a seguir. Fui ingénuo.
Acreditei que o teu sentimento por mim apesar de ferido, era verdadeiro. Que havia dimensão. Que existia beleza. Algo a tocar o espiritual. Algo sublime. Um laço sagrado que nunca podia ser conspurcado.
Deixei-te partir para respirares. Para voltares a ti. Aguardando o teu bilhete.
Ele chegou numa tarde sem cor.
Pedia ajuda e Amor (como todos os bilhetes que me mandaste ao longo do tempo. Sempre amachucado, sempre imperfeito e totalmente inodor).
Montei o meu melhor cavalo e galopei para ti.

Quando te abracei senti que já não eras a mesma pessoa.
Nada estava bem. Alguma coisa tinha mudado.
Vim-me embora preocupado. Com uma sensação esquisita. Como se a terra rodasse mais devagar.
Durante essa noite senti frio.
Senti algo a sair de dentro de mim.
Levei a mão à barriga e senti um corte fundo na pele. Esfreguei os dedos e senti um liquido espesso. Apressadamente acendi uma vela e vi as minhas entranhas, avermelhadas, balançantes, jorrando Amor devagar. Agarrei-me à barriga e comecei a empurrar as tripas para dentro de mim.
Estava frio.
Tão frio.
No chão, uma adaga cor de prata com as tuas iniciais. Tingida pelo meu sangue.
Para me aguentar, bebi aguardente e cozi-me a frio.
Sozinho.
(Já tinha visto coragens idênticas ante piores situações.)

Parti para o teu solar.
Só para te falar, tive de insistir.
E muito.
Só para me responderes outra lamina me talhou.
Ao me confessar tu não acreditaste.
(O plano já ia a meio. Que as coisas do asseio começam pela cabeça)
Disseste o que dizias sempre, num passado sem presente, apressando a sangria.
Não houve pena nem perdão, por sentires meu coração, bater a desfalecer.
Sabendo das minhas obrigações, juraste com malvadez, que esperavas pela vindoura batalha, para me matares de vez.
Mal virei costas senti a forquilha, trespassar-me os pulmões. A espinha estalou e cai olhando para ti.
- Foste tu.
Primeiro choraste e depois sorriste. Riste até gargalhar. Por me teres ali moribundo sem poder os olhos fechar. Sem me poder mexer. Sem poder falar.
(O plano já estava em marcha e não havia escapatória.)
Chegara a hora da tortura.
Primeiro, contaminaste o sal sagrado que afastava os espíritos maus do nosso santuário.
Para dentro de ti trouxeste o podre. Embeiçada pelo nojo. Lodo sujo e pestilento.
Por ti merda esfregaste, e até te agoniaste, mas fechaste a boca a tempo.
Engoliste o próprio vómito, só para teres tempo de limpar a cona suja ao meu rosto imóvel.
(Choroso.)
Depois roçaste-te outra vez, para rasgares de vez, o que já não sentia calor.
Debruçaste-te sobre o meu corpo, com um mal cheiro tonteante, afagando-me o rosto.
- Eu nunca mais vou chorar por ti - dizias com a voz mais decidida.
Meteste os dedos à garganta e vomitaste-me a cara. Uma e outra vez.
Eu lutava para respirar. Para ao acido me escapar. Pensava num campo de flores para fugir aquele azedo.
Sem força e sem medo.
Senti-a continuar.
Senti entrar-me pelo cabelo e à cara voltar. Até não se notarem as minhas feições.
Apesar de nada mais poder respirar, e ter em mim todas aquelas misturas, confortava-me com o sabor do sangue que tinha na garganta.
Pedi a Deus que acabasse com aquele tormento.
(Era sentir demais. Era uma violação. Que ela me largasse o fogo. Que me matasse à paulada)
Mas não.
Nem Deus me podia salvar de tanto ódio. De tanto desprezo pela alma de alguém.
- Misericórdia - gritei dentro da minha cabeça
Mas o que veio seria indigno.
- Não adianta. Eu nunca mais vou chorar por ti - dizias com toda a certeza.
Nua escorrida e porca, pegaste na marreta e esmagaste-me os pés.
- Nada senti.
Depois as pernas, o sexo e os braços.
- Nada senti.
Em seguida pegaste numa faca ferrugenta e cortaste-me articulações. O fim das pernas, atrás dos joelhos, as virilhas, os pulsos e o meio dos braços.
Quando me beijaste...
Quando me passaste a faca pela garganta já estava morto.
Na tua cara restava um vazio e o meu sangue ejaculado daquele último golpe.
Capaste-me e deste a carne aos cães famintos.
Prendeste nos meus restos a uma besta para arrastares o meu cadáver pelo chão do teu inferno.
Exibindo orgulhosa a tua façanha. Para tudo o que é reles e torpe me poder cuspir em cima. Para que toda a populaça se pudesse alcançar, puxando-me as vísceras, arrancando-me os olhos, e o mais imundo e funesto que uma alma atormentada possa imaginar.
Mas que parada.
Uma homenagem à deslealdade, à traição ao perverso.
Ao doentio, ao insano e ao profano.
Um desfile pela maldade humana.
(Ela que só existe para exterminar a ideia de Amor.)
Nada senti.

Ontem quando de noite, passaste pelo que resta do meu corpo empalado, no teu coche corrompido.
Tudo senti.
E morri novamente.

Apenas espero, que quem leu até ao fim esta história, acredite na ressurreição.












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