domingo, setembro 01, 2013

O Divã - V - Setembro é poliamoroso



Chego exausto ao consultório.
Na minha cara vêem-se todos os males do mundo.
Campainha.
A porta abre.
- Bom dia - diz calmamente enquanto me estende a mão - Está melhor que há bocado?
Nego, renego e depois de fazer o favor de entrar.
Sinto o fresco que embala a casa.
Respiro.
É que na rua está um calor abafado. Daqueles que enlouquecem as pessoas.
Respiro com gosto.
- Por favor - diz-me indicando para me sentar.
A pele do divã está ainda mais fresca. Sinto-a nas pernas.
Vim de calções
(E pelo olhar deste paneleiro, já vi que não aprecia a minha indumentária. Acha que já não tenho idade para estas coisas)
Maricão de merda.
Ali está.
Fresquinho e fofo a um Domingo de manhã. Bem dormido. Bem tratado. Depois do seu treino e da sua meditação.
Bastou atender-me o telefone e vestiu algo mais casual para me vir dar consulta.
- Água ? - pergunta ele.
Aceito.
Sabe-me bem. Leva-me o sabor do tabaco embora. O peito refresca. Já não me parece tão apertado. Já não sinto aquele nó enorme.
Pulsante.
- Isto é que foi retomar em Setembro - graceja a flausina.
- Hoje é dia 1. Um bom dia para começar - respondo forçando a simpatia.
- Então diga-me. Qual o motivo de tanta urgência?
(Se ele soubesse o que me urge)
- Dormi três horas e estou exausto, doutor. Há muito que não passava assim uma noite.
Ele senta-se devagar, com um ar compenetrado, preocupado, e eu continuo.
- Não sei o que se passa. Não compreendo. Sinto-me uma merda.
- Mas aconteceu alguma coisa?
(Só aconteceu.)
Recostei-me no divã, olhei para o tecto e num suspiro disse.
- Eu e a Isabel acabamos.
(Nada senti)
Ele faz uma pergunta qualquer.
- Acabámos sim. De vez.
(De vez, para sempre, eternamente, vezes infinitos - e não há ditos nem reditos)
- Acabámos há pouco. Mesmo antes de lhe telefonar. Ontem à noite não voltou para casa e estive dez horas à procura dela. Fartei-me de telefonar. Insisti até não poder mais.
- Mas já falaram? Tem a certeza que é definitivo? Essas coisas acontecem na vida de um casal. Vocês já tiveram arrufos anteriormente.
(Eu senti. Não explico. Sinto apenas.)
- Já falámos sim. Ao telefone. Ela traiu-me.
- Traiu como?
- Traiu-me - respondo irritado - Traiu-me de trair. De estar com outra pessoa. Com outro homem.
(Trair, enganar, falsear, mentir, ser infiel... ser uma pêga, uma putona, uma porca, um vaquedo, uma fruta do chão.)
- Aaaaaaaaaaah! - exclamou arrastado pela minha inflamação, como uma sopeira regateira.
(Achei graça.)
E continuei.
- Toda a noite imaginei. Toda a noite inventei. De cigarro em cigarro. Foi como se escutasse a verdade no escuro. Eu já sabia.
- Mas a seu ver... A relação têm andado bem?
- Não.
Aqui lhe conto que após uma séria conversa, tínhamos acabado na segunda-feira anterior.
O motivo passa por uma incompatibilidade clássica, caso onde a fêmea tenta forçar o seu parceiro a "evoluir" o relacionamento de ambos, para moldes mais definidos e aceites socialmente.
Esta psicopatia "dá muito" nas mulheres, especialmente nas mais bonitas e mimadas, com grande enraizamento rural, parecidas com as mães, de pouca imaginação para se desenvolverem e se divertirem sem a ajuda de terceiros.
(O que elas gostam mais de fazer passa exactamente por atazanar a vida a um gajo. Este ultimo é a sua grande distracção e projecto, o principio e o fim de toda uma elaboradíssima dinâmica social)
Todavia.
Na separação.
Ela sempre expressou vontade de preservar a amizade e como tal, não desejava perder o contacto. Continuamos a falar por mensagem.
- Jurou-me amor. Que não se aproximara de ninguém. Que eram coisas sem importância. Pediu-me para esperar por ela. Que ia fazer psicanálise. Que queria ficar comigo para sempre. Que se ia tratar. Que o problema não era eu, mas sim ela.
(E de facto é. Só pode.)
E aqui lhe conto que tudo correra tranquilamente até à tarde de ontem - Sábado.
- Ela insistiu para nos encontramos pessoalmente.
- E encontraram-se?
- Sim.
- E como é que ela estava? Como é que a sentiu?
- Estava débil. Aluada, fatigada. Fraca. As frases não faziam sentido. Não tinha expressão facial. Parecia "pedrada". Comprimidos talvez? Não sei.
- Ela auto medica-se?
- Que eu saiba não! Nunca dei por nada.
- E afinal que queria ela?
- Um abraço. Diz que precisava de um abraço e que queria estar e falar comigo mais logo.
- Sobre o quê?
- Não disse. Referiu apenas que ia sair mas que não se demorava por causa da amiga.
- E você?
- Eu concordei.
(Sou mesmo parvo. Acreditara em falinhas mansas. Coitadinha.)
E prossigo.
- Posso beber mais um copo de água, se faz favor?
- Claro que sim.
A água perdeu o impacto.
(Sinto nada)
- Quando volto a comunicar com ela, diz-me que não dá e que falamos depois. Meia hora depois diz que um dos telefone avariou e que apenas tem um outro, que a horas tardias me rejeitou toda e qualquer chamada.
- Ela não lhe disse nada?
- Das duas horas da noite em diante... nada.
- Mas nada? - insistiu o doutor com ênfase.
- Nada! Cagou p'ra mim. Completamente.
O silêncio ficou alto demais e o rosto sereno do cientista deixou-me um olhar compreensivo.
- E mais? - perguntou de estalo.
Falo da confissão. De que esteve com um rapaz até tarde e que se sentia atraída por ele. Que não foi a sua primeira escolha mas servirá para o propósito.
Que não é como eu.
(Não lhe eleva a fasquia, não lhe exige postura.)
Que neste arranjo, não tem medo de ser ela própria. Não teme a minha reacção.
Que o conhecera num arraial de Verão e que deste então têm trocado mensagens.
Que já se tinham encontrado antes.
(Ele não é como eu.)
É simples.
Ela não quer se desfazer dele. É a oportunidade dela para voltar à sua antiga vida. É hora de por os pés no chão.
Mas não o faz sem vingança.
Com toda a malvadez, num golpe frio e desleal.
O doutor debruça-se em minha direcção.
- Então diz-me que ela agiu de má fé consigo? Ela combinou consigo previamente e depois combinou com ele.
- Sim.
- E como é que isso o faz sentir?
(Que segredo. Que mistério)
Mas respondo.
- Magoado, humilhado, mal tratado, traído, mal amado, miserável e infeliz.
(Silêncio.)
- E faz-me sentir má pessoa.
(As sobrancelhas sobem confusamente)
- Digo. Sinto-me mal comigo mesmo. Fui ingénuo, fui estúpido. Acreditei mas não merecia. Nunca lhe vi verdade mas tentei sempre confiar nela.
- Foda-se - diz o médico num suspiro.
(Achei graça mais uma vez)
- Perdão. Escapou-me. - desculpa-se embaraçado enquanto se endireita e ajeita a roupa.
- Não tem importância - respondo com um sorriso.
Ele suspira.
- Ela fê-lo para se igualar - arranca o doutor assertivamente - Fê-lo porque a sua rejeição - em relação às ideias dela - não é assunto fácil de lidar. Repare que as mulheres não estão acostumadas a estar nessa posição. Pelo menos não no mesmo nível que nós homens. A rejeição é um tipo de sentimento ou emoção bastante pesado para certas pessoas.
(E daí?)
- Entendo bem. Percebo. Fui preterido em relação a outra pessoa. Dói muito.
- Ela desiste e destrói. Prefere assumir um papel mais confortável e menos nobre. Dai ter agido com tanto requinte e violência... emocional, entenda-se.
Foda-se.
- Mas doutor. Isto é do pior. Pior que aquela gentinha cliché que se debate com as sombras nas minhas costas. Pior que me esfaquearem à traição. Veja a crueldade do processo. P'ra quê? Mas p'ra quê? - exalto-me.
- E após lhe perguntar "E agora?", respondeu que haviam três caminhos: o corte de relações, a amizade e o poliamor.
- Poliamor?
Uma gargalhada medicinal, bem forte, invade o Domingo e a memória.
Repetindo sem fôlego
- Poliamor?
- Isso mesmo. Poliamor. - confirmei brincando.
Eu nunca tinha visto o meu psiquiatra rir desta forma. Parece que basta repetir a palavra para ele se escavaque a rir.
Poliamor!
E lá se fala quando chega a compostura.
- É estúpido não é? É que assim de repente lembro-me de uns 30 sinónimos para Poliamor.
- Calma. Poliamor existe cientificamente, mas continua a ter graça.
(Tem graça porque não é com ele.)
Dou por mim a um Domingo, a rir da minha desgraça, com um psiquiatra gay, porque a minha ex-namorada é demasiado dada... ou carente... ou um nome de um animal qualquer... ou doidinha... ou tem um estalo bruto nos cornos...)
Ninguém sabe.
Respirar fundo.
- Então e o que é que lhe respondeu?
- Eu preferia fazer a cura a frio. Cortar relações, deixar de a ver de vez. Mas mais uma vez ela insistiu na amizade - digo desiludido.
- Ela nunca falou em reconciliação?
- Não.
- Sempre separação?
- Tal e qual.
Um sopro longo sai da boca do doutor.
De repente a sala fica mais quente.
Muito mais quente.
- E você acha que ela gosta de si?
Respondo com uma pergunta.
- Não é obvio que não?
- Diga-me o que acha sinceramente.
- Acho que ela não gosta de mim.
(E sai-me o que resta das minhas entranhas.)
- E você?
O tom da pergunta, da-me a ideia que o tempo da sessão está perto do final.
Pior.
Dá-me a sensação que "o nosso tempo está a chegar ao fim".
- Eu o quê? - Faço-me despercebido.
- Gosta dela?
É duro. É muito doloroso.
Mas respondo.
Num suspiro derrotado digo:
- Sim

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