O Divã - VI - Podem ser mentiras, mas são as minhas mentiras




Estou cansado. Farto de andar.
Ando sem destino até não ter mais um passo para dar.
Nada para percorrer, nada para descobrir.
Continuo porque a noite está quente e até tem uma brisa viva.
(As verdadeiras noites têm sempre brisa.)
E como a verdade das noites passa sempre pelas mentiras de alguém, desfaço a marcha.
- Agradeço o convite.
Sento-me no banco para fazer um bocado de companhia à mais velha das minhas vizinhas.
Ela mesmo. A arvore grande e torta que me vê passar todos os dias.
Está marreca. Farta e cheia à espera do fim do Verão.
Sempre à espera.
(Coitada, ela não se pode ir embora. Se o fizer, morre.)
Recosto-me como fazia quando era miúdo. Lembro-me de passar horas em bancos como este.
Lembro-me de uma data de coisas boas. Lembro-me até ficar feliz. Lembro-me até ficar com saudades, e de repente, fico triste.
Fuma-se.
(Fogo à peça para acalmar o nervo.)
- Anda a fumar muito?
Interrompe o camarada de camisa cor de rosa.
Ao lado da cor, em cima da secretária, uma revista sugere: Tenha uma barriga de ferro.
(Ora porque diabo quero eu uma barriga de ferro?)
- Ando a fumar mais um bocado, sim. - Respondo consciente.
Ele toma nota.
- 8 exercicios de top para definir os abdominais -
Fumo até me cansar.
Os meus olhos estão abertos, mas não estou a ver nada. O que vejo não me chega ao cérebro.
Tento outra coisa.
Qualquer coisa para sentir algo diferente.
Fecho os olhos. Escuto a noite.
Escuto a verdade quando reconheço o barulho do carro.
- Vá trabalhar com mais estilo - 
O bloco de notas aninha-se no colo e as mãos juntam-se como se fossem rezar. No mesmo movimento aproxima o nariz das mãos comungantes, descobrindo um machucho relógio azulado no pulso direito.
(Coisa fina)
- Quando passa à minha direita confirmo a matricula e descubro que era ela. A Isabel.
- E então?
- Eram duas da manhã e tinha passado a noite a telefonar-lhe. Ela sempre sem responder.
- Quantas vezes ligou? Contou? Duas? Três? Cinco? Mais?
- Mais - respondo envergonhado franzindo a testa.
- Mas contou-as?
- Não contou ela. Fora mais de 15.
O labio inferior da boca da frente, sai acenando embalado pela cabeça.
Com um ar brincalhão e cúmplice pergunta-me.
- Acha que ela queria falar consigo?
Rio-me e devolvo.
- Acho que não.
(Tenho a certeza que não)
- Refeições fáceis para homens ocupados -- Talvez ela estivesse a precisar de espaço?
- Talvez... Mas eu estava a precisar de confronto.
- Como assim?
- Precisava de a ver. Precisava de a sentir. De tentar entender toda esta confusão. Não sei o que me passou pela cabeça mas arranquei para casa dela.
(O coração corria, os nervos cegavam, a passada forte. Custava-me a respirar. O impulso era forte. Tão forte. Não conseguia pensar em mais nada. Precisava de falar com ela. O estômago queimava, as pernas doiam, e eu não conseguia pensar em mais nada. Precisava de falar com ela.)
- Aquela hora? Contra a vontade dela?
- Sim.
- E como é que ela reagiu?
- Mal. Ficou chateada. Ficou nervosa, mas após alguma resistência lá consegui falar com ela. Não foi agressivo. Ao ver o meu estado percebeu que eu precisava daquele momento.
- Bem. E como correu a conversa? Já percebi que não foi bem uma conversa. Discutiram?
- Eu quando entrei, estava tão nervoso que não conseguia dizer nada. Ela sentada ainda aparvalhada com a minha atitude e eu de um lado para o outro, a tentar acalmar-me. Ela calada. Eu a tremer. Ainda foram uns bons minutos nisto.
- Queime mais calorias - Peguei na cara dela e disse-lhe ao ouvido
- Amo-te! -
(BUM)
 A expressão do seu rosto acusou o momento e num suspiro disparou:
- Foda-se... mas que filho da puta.
E já exaltada.
- Sabes quantas vezes eu disse que te amava e fiquei sem resposta. Sabes?
(Não faço ideia. Acho que o sentido da pergunta não exige exactidão.)
E já raivosa.
- Agora? Tu 'tás doido. Pior, deixas-me doida também. Já viste o que seria se eu te ligasse estas vezes todas?
(Ela tem razão.)
- Nunca me disseste que me amavas e agora vens com isto.
(Ela continua com razão mas eu já vou respondendo)
No fim da explosão digo.
- Mas é verdade.
(BUM)
A camisa cor de rosa insiste.
- Já percebi que a coisa complicou bastante.
- Sim é verdade. Teve de ser. Não pode ficar nada por dizer. Se não o fizermos estaremos condenados.
- E não tem medo de remexer nesse entulho. Descobrir mais mentiras. Ambos têm muito que contar certamente.
- Não temos outra hipótese. Venha o que vier temos de aguentar.
(Podem ser mentiras, mas são as minhas mentiras.)

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