Assim não vale (Ensaio sobre o desconforto)

Assim não.
Assim não vale.

Está frio.
Mesmo muito frio.
Já passamos o meio de Maio e diz quem sabe, que vai nevando por terras lusitanas.
Assim não.
Não precisava de revoluções nem de futebóis. Aguentava a pobreza numa bolsa gasta, das que fecham com cordões.
Aguentava-me.
Respirava fundo tolerando a ignorancia alheia. Que triunfe o que é estúpido e todos os cultos ao desnecessário.
Que triunfe católicamente.
Como um padre de óculos.
Que me interessa?

Agora assim não.
Assim não vale.

Estou farto. Já perdi conta às desgraças. Aqui condenado sem alegação ou julgamento.
Sequer posso troçar dos monocromaticos emigrantes que vivem em terras de gente feia. Ao frio e à chuva rodeados por mulheres de pés grandes, lá para os nortes. Cambada de duendes amantes da tecnocracia dos bárbaros.
Nada me aquece.
Não há sol que abençoe esta terra.

Assim não.
Assim não vale.

Não sou bicho de desconforto.
Como posso escrever ou tocar com as mãos empedernidas? Roxas. Sem pinga de sangue. Como? Preciso de vida. De movimento. Preciso que ferva.
Basta de dormência. Temo-a.
Mas o negócio tem sido este. É do que se tem usado por estas épocas.
Já ninguém prefere a dor. Só o nada.
Nada.
Esquecem-se que no nada não há macio, nem suave, nem quente, nem aconchegante, nem fofo, nem um infinito de coisas boas.
Mas com este frio.
Estas correntes. Vagas de vendavais que espalham entulho. Estas que varrem cabeças e expandem desertos.

Assim não
Assim não vale.

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