terça-feira, março 19, 2013

Uma Aventura (Parte I - O fantasma, a saudade e a laca)

Muito recentemente ao sentar-me no sofá senti que a sala estava diferente.
Senti-me estranho.
Não era um problema de percepção. Nada havia mudado. Tudo se encontrava no mesmo lugar.
Inexplicavelmente, fiquei ansioso.
Talvez me estivesse a dar alguma coisa má, ou sentisse uma presença sobrenatural. Essa estranha energia inquietava-me compulsivamente, adensando o desconforto pré-panico.
Num sopro de lucidez decidi acalmar-me. Fechei os olhos e respirei fundo lentamente.
Quando os abri, como por instinto, deparei-me imediatamente com o motivo da minha exaltação.
O me causava tamanho constrangimento passava pela presença de um colorido livro, mesmo no centro do massivo móvel da sala.
"Uma Aventura no Comboio? Mas que está esta isto aqui a fazer?"

A minha prima tem 12 anos e inocentemente havia-me espalhado pela casa, vários livros da famigerada colecção.
Para mim foi a mesma coisa que ver um fantasma, já que a minha colecção foi-me expropriada pela senhora minha mãe no inicio do milénio vigente, sob um qualquer caridoso pretexto.
- Ela tem a mania de distribuir pertences meus a desconhecidos ou instituições, sem me informar. Pensando que... julgando que... achando que...
É comum.
Mas adiante.
Hipnotizado peguei no pequeno livro e voltei ao sofá examinando tão curioso achado.
Naquele instante recordei com ternura o meu 1º livro da colecção. Recebi-o num Natal longínquo. Sequer me lembro de quem me ofereceu o Uma Aventura na Falesia. É o nº3 - A história passa por uma gruta, uma praia, um puto escocês e as cegadas do costume.
Imbuído pela nostalgia, saboreando o prazer que a literatura juvenil me deu tantas vezes, arrisquei ler um paragrafo ao calhas da obra em mãos.
- Literatura juvenil como nas prateleiras das livrarias -
Assim foi.
Li um paragrafo e fechei o livro.

A principio nada senti. Uma completa sensação de vazio.
Eu que sinto tudo.
Nada.
Rigorosamente nada.

Fui à minha vida.
Distrai-me com o trabalho, estive ao telefone, fui comprar tabaco e voltei para a labuta habitual.
Num segundo, completamente vindo do nada, a meio de tudo e mais alguma coisa, fiquei abismado olhando o infinito através da janela.
Assim que o tempo voltou, exclamei em voz alta:
- MAS QUE GRANDA MERDA!

Que texto de merda. Como é que aquilo ainda existe?
Achei um absurdo.
Estarei eu a ficar doido?
Estava de certeza.
Comecei a rir sozinho.
As lágrimas divertidas corriam-me rosto abaixo.
Deixei o que estava a fazer e comecei a divagar pelo universo da saga.
Ri a bandeiras despregadas.
A cada detalhe recordado, a cada pesquisa feita online, a cada frase lida.

- Ora deixem lá ver se eu consigo explicar isto -
A colecção Uma Aventura é uma série de livros sobre as aventuras de 5 personagens (João, Pedro, Chico, Teresa e Luisa) e dos seus dois cães (Caracol e Faial ).
A escrita destas obras é da responsabilidade das professoras Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada.
Como descobri numa entrevista, as senhoras começaram a escrever histórias de aventuras para os seus alunos, tendo em 1982 lançado o primeiro livro da colecção, Uma Aventura na Cidade. As personagens principais são inspiradas em alunos das mesmas e o genero aventura foi decidido via inquérito.
Muito bem.
Falando de coisas sérias.

Os livros de Uma Aventura podem resumir-se numa palavra:
- LACA.

Isso mesmo laca para cabelo.
Daquelas que fazem pfffffffffffff.
Aerossol.
O delirante flagelo causado pelos efeitos secundários do uso excessivo de laca.
Como é do conhecimento comum, este tipo de produtos ataca essencialmente o juízo das senhoras impecavelmente penteadas. Entre os grupos de risco mais famosos temos as "velhas de cabelo lilás", as "velhas de cabelo roxo", "velhas de cabelo grená" e as professoras do básico no periodo pós PREC - caso das autoras de Uma Aventura.
- É que nada mexe. Pode vir o tornado mais ruim, que o "cabelo capacete" permanece.
Ali fica... impecável.
Escultural.
Arte pura.
Pouca gente sabe que a laca é um perigo do caraças.
Intoxica, dá pedra e é facilmente inflamável.
Chega a ser uma questão de saúde publica.
As pessoas que usam laca deviam ser obrigadas a usar o mesmo letreiro que encontramos em todas as bombas de gasolina.
- Desligar o motor, desligar qualquer fonte de ignição, não fumar, foguear ou utilizar telemoveis, etc.
 Ora lá está.
Basta olhar para uma fotografia do dinamico duo em questão para perceber tudo.
Estes devaneios criativo extremos têm sempre uma explicação toxica.
Só pode.

(continua)

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