O réu declara-se inocente

Nada tecnológico.
Qualquer dia esqueço-me de como se escreve.
De como se desenha uma letra.

Um dia destes
Um qualquer,
Deixo de ter insónias. Escuso-me.

Chego farto e gordo. Cheio de miudezas. Ora azedas ora amargas.
Ora eu sempre em açúcar, não me aprumo em cores de inverno.
Um
Dois
Três
Quatro

Alem disso desaprendo.

Tenho infinitas dificuldades em comunicar.
Se digo. Se verdadeiro. Se frontal. Se digno. Se justo. Se sincero.
Nada me serve.
Se escrevo, pior!
Corro ao dicionário para ver se me esqueci do significado da palavra.
Continua o mesmo.
Volto ao espelho à procura de empinamentos no nariz.
Ora se nasci assim.
Que merda querem que faça?
Arrebitado.
Olho e nada ostento. Não tenho riquezas ou saques. Nada para invejar.
Apenas asseio.
A higiene ainda não é crime!

Porque não me entendem então?

Acusam-me de heresias. Apontam-me o dedo enquanto se victimizam.
Passo sempre um mau bocado quando não tenho interprete.
- Eu não sei falar com esta gente. Eu que vou a todo o lado, que troco sorrisos em toda a parte, aqui nunca me safo.
Ali fico... a tentar desculpar-me:
- Perdoa a minha diferença. Perdoa a educação que tive. Desculpa pensar. Desculpa sentir-me livre.
(Eu sei que esta da liberdade é uma megalómana utopia própria de outras épocas... mas ainda sonho com a liberdade)
Eu próprio a nada vos obrigo.
Tenho vontade, mas deixo a tirania para quem tem vocação.

De tudo o que me acusam, o réu declara-se inocente.
E posso prova-lo.

N/A - Este texto foi primeiramente escrito em papel e nunca estará ao abrigo de acordo ortográfico foleiro.

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