O Divã - IV - O irmão gémeo




- Sabe Sr. Doutor, eu tenho um irmão gémeo.
A sala cheira a produto para as madeiras. Tudo brilha impecavelmente com antigamente. Como dantes.
- Sério? - Pergunta o homem enquanto se debruça em direcção ao divã. - Não me recordo desse irmão. Sequer anotei tal parente nas minhas notas. Já me tinha contado?
A surpresa é genuína.
Estes gajos passam tempo a mais a escolher carros caros para as vacas das filhas. Pequenas pegas oxigenadas.
- Não. Não lhe tinha contado. Desculpe.
Tenho de disfarçar este sorriso. Não quero que este gajo desconfie de nada.
- Antes de mais peço-lhe... como direi? Não se ofenda com a pergunta que lhe vou fazer, mas tenho de saber... e não querendo fazer julgamentos de valor, sem lhe atribuir qualquer sentido de má fé...
- Desembuche homem - Interrompo eu tanta atrapalhação.
Estes tipos são mesmos atadinhos.
- O seu irmão gémeo não veio aqui em seu lugar pois não? - pergunta muito sério.
- Não. Se nós trocamos? Não. - respondo sorridente.
- Ah... Que alivio. Isso explicaria muita coisa - responde brincalhão.
Eu já te lixo.
-Quer dizer. Nunca se sabe. - Escondo o sorriso e volto a atacar - Ele é de travadinhas.
Alguma coisa me distrai e procuro o que desconheço do outro lado do divã.
É só um brilho que enfeita a madeira.
- Quer me falar desse irmão?
Ele está a alinhar. Ele não é parvo. Apenas puro de coração.
- O Sr Doutor sabe que estou a brincar consigo? Não sabe?
- Mas fale-me dele. Vamos experimentar - diz com voz grave e calma.
Ele quer-me hipnotizar. Ele vai saber. Ele quer me acalmar.
O que é que ele quer com esta brincadeira?
Do outro lado a insistência.
- Vamos. Não tenha medo. Não lhe vai custar nada.
Este merda quer que eu lhe fale de uma pessoa que não existe!
Também não me vou ficar.
Começo com um suspiro.
- O meu irmão gémeo é mais magro que eu.
- Como se chama ele? - Interrompe a voz grave e calma.
- Não sei. Não me lembro - respondo bruscamente
- Muito bem. Continue...
Suspiro novamente olho para a frente sem focar a prateleira colorida que tenho à minha frente no fundo da sala. Mesmo que eu quisesse focar, não conseguia ler nenhuma lombada.
- Quando estiver pronto - relembra o homem de papeis na mão.

- O meu irmão tem os dentes todos. Ganha bem e faz desporto várias vezes por semana. Está no exercito, mas odeias mulheres com tara por fardas. Diz que são todas umas parvas de mau gosto.
A caneta começou a rabiscar.
- Ele tem várias namoradas... e tem tempo para todas. Felizes, contentes, estão satisfeitas. Elas não interferem. Não falam sobre a vida dele, nem o chateiam. São bem comportadas. Ele não. O cabrão vive o que pode e não olha a limites... ou melhor, mesmo que os mire, não se deixa amarrar pelos mesmos. Ele tem coragem.
- Acha-o muito parecido consigo?
- Em algumas coisas! Ele é o tipo que me passa para o computador os textos que escrevi... à mão... à pata. Como deve ser... É o gajo que me faz as cosias chatas.
- Então ele ajuda-o? - Diz ajeitando com a mão direita, a meia da perna esquerda.
- Nem por isso... às vezes deixa-me pendurado. É preguiçoso. Demora muito tempo para resolver seja o que for. Vai ajudando.
A caneta não pára. Parece sôfrega.
Continuo
- E fuma. De vez em quando lá o apanho fumante e escondido. A pensar num plano qualquer para dominar o universo como na banda desenhada. Nem lhe preciso de perguntar nada. Já sei como ele é...
A estante é alta como o caraças. Chega ao tecto e organiza livros densos. Parecem cheios.
E continuo enquanto me endireito no divã.
- Nunca me deixa sem noticias. Deixa-me sempre espaço para pensar. Conhece-me e isso basta-me. Levanto-me ágil. Ajeito a camisa o cabelo e esfrego os olhos com as duas mãos. Sorrio para o rabiscador e despeço-me.
- Boa tarde Sr Doutor. Vemo-nos daqui a quinze dias. Para a semana folgo.
- Mas vai já embora? - Pergunta surpreendido - O seu tempo ainda não acabou.
Meto a mão na maçaneta e explico-me
- Lembrei-me mesmo agora. Tinha uma coisa combinada com o meu irmão gémeo e é melhor não me atrasar. Resto de boa semana.
A porta fecha-se
O meu irmão gémeo espera-me com um abraço junto à secretária da recepcionista.
Enquanto esperamos pelo elevador pergunta-me.
- Viste as mamas da gaja da recepção? Grande par de chuchas.

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