As velhas da minha rua

Muitas vezes tenho de trabalhar ao fim-de-semana.
Não há outra forma.
Porém guardo sempre umas horas semanais para descansar.
Desta vez tentei aproveitar o sol e estendi-me lá fora em meditação ligeira até ouvir:
- Ó Ilízia.
Grita uma velha esganiçada, que insiste segundos depois mais alto e mais esganiçado
- Óooooooo Ilíiiiiiiiziaaa.
A velha é baixa e de óculos. Já tem o cabelo grisalho. Arrasta o passo curto com a maior pressa possível e apresenta-se estilosamente de bata. Botões e um padrão capaz de endoidecer qualquer sensor de alta definição.
Do outro lado do muro, a resposta vem em forma de urro.
- UUUUUUUUUUUUUUUHhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
Parece uma sirene gay.
- Tás ai melher?
De repente uma cabeça desgrenhada surge espreitando ao muro.
- 'Tou pa'qui ó óhgar estes vasecos. Atão? Qu'andas a fazer?
- Vinha aqui a passar. Fui ali à farmácia comprar estes cumprimidos? - diz a velha de óculos, mostrando à outra um saco de plástico branco, cheio de cruzes e cobras a verde.
- 'Tão p'ra quê?
- Olha noutre dia fui ao centro de saúde e o médico novo c'agora lá tá, disse-me que eu tinha a atinção em alta.
- Ahhhhhhhh - admira-se a outra - Pois isto é mesmo assim. 'Tá tude velhe.
- Ai nim me digas nada. Tenho passado os dias a caminho dos medecos.
- Atão, que fizestes tu?
- Na fiz nada - responde num guincho - na terça fêra tava a comer uma talhadica de belancia, partiu-se-me um dente tive d'ir pó dintista. Tenho aqui a inginve num horror.
- Ahhhhhh, pois - admira-se novamente a cabeça no muro.
Como explicar. O cabelo da muralhada senhora parece um ouriço caixeiro tingido de uma cor que nem todas as vistas alcançam.
- Olha priga, iste 'tá mem temivle - dizem as dioptrias esganiçadas abanado a cabeça.
- 'Tão e o mais piqueno. Já arranjou trabalho?
- Tivestes na prai muito tempo. Já anda pra lá. Mas já é afectivo. - diz orgulhosa.
- Ah é? Atão entrou assim logo?
- Foi o primo do mê homme que o pôs lá. Ó principe não 'tava a dar, mas ósdespois lá deu.
- Tão antes assim que pior - Diz o ouriço da dance music.
- Ai... mas já se livrou da da Juvenala. Tava a ver que não.
- Ah já se deixaram.
- Deixo-a ele. Ai Deus me perdoe mas eu na gostava nada dela, nin da família. Aquela tia dela que fugiu pá França mais o da Arminda, mais o pai dela...
- Na 'tou a ver quem é - diz o ouriço semicerrando a expressão.
A resposta vêm indignada e cheia de guinchos intoleráveis.
- Ora na sabes. Tão na sabes? O Romeu das âmblancias. O que era casado com a da Mari do serrador. Ai santo juizo. Tão na 'tás a ver? De bigode com uma granda barriga...
- Ahhhhhh já sê, ele é sebrinhe do do cochicho, não é?
- Mem ele.
- E o que lhe aconteceu?
- Oh, mas tu andas mem fora da graça de Deus. Tão na meteu uma brasileira de vinte e poucos anos dentro de casa?
- Ai Jasus, Deus nosso senhor. Parece uma praga.
- Dizim que era menina ali numa casa no Vale de Santarém, mas eu na sê se é verdade ou não. O do Manel coniche, é que disse. Ele tamem é muito amigo dessas coboiadas.
- Qualquer dia é tudo brasilêro. É esses dos brasis e dos cranianos. Fui a Ri Maior era tanto craniano, tanto craniano.
- Mas à conclusão, o mê Renato lá pôs um bocado de ideia na cabeça e deixo-a. Ela também anda ai sempre toda despida, foi o melhor.
- Isso agora é memo assim. Metem-se debaixo de qualquer um. Elas na conhecim limite. É só comichão no bico do pardal.
- Ai melher - diz a de óculos com as mãos no peito e saco da farmácia sempre a ramalhar - se ê soubesse... Ai jure por tudo o qu'é mais sagrado. Nunca deixava.
- Deixa 'tar atão. Já passou. Quizessim eles outras coisas. Agora na querim nada. Nin trabalhar.
- Ah por falar nisse. Tenho de me ir embora fazer o jantar ó homme que ele daqui nada tá ai. Béjinhes e té manhim - dizem os cabelos grisalhos já a subir a ladeira afastando-se do muro.
- Também pra ti. E onde anda ele?
A velha alpinista pára olha pra trás e grita.
- 'Tá na vindima do Toino Carlos. Anda lá a fazer a jornada.
- Ahhhhhhhh - admira-se novamente - Adeus. Também vou tratar do mê jantar.
- Adeus - grita a outra já de costas.
São 17 e 24.
O silêncio regressa, mas o sol já foi embora

N.A - Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência!

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