O Divã - III - Cada um foge do que pode



O consultório é de todas as cores menos da minha.
Eu tinha razão.
Eu avisei.
Isto é da terapia.

Tenho demasiadas coisas para fazer. Desta vez não existem listas. São histórias novas, algumas muito novas, outras novas demais.
Não procurarei papeis que perderei quando precisarei deles.
Aqui o futuro é outro tempo verbal.
Só por isto.
Imagine-se que existe destino e o tempo é inconstante. Delirante. Com vontade.
É por isso que não uso relógio. É por isso que chego sempre atrasado. Eu tenho o meu próprio tempo. Todos os que têm relógio estão mal.

Adivinha-me.
Farei tudo para não o fazeres. Sento-me com a mentira há tempo demais. Falo com este e com aquele. Vendo o que tiver e roubarei mulher alguma. Aqui não existem especialistas em malandrice. Estou reformado. Estou de férias e precisar de umas como deve ser!
Tenho demasiado para sofrer. Desta vez não existem listas. Só sonhos. Sonhos e trabalho. Tempos paralelos. Pesadelos e ataques de medo.
Há de tudo um pouco e made in china.
Como diria um amigo meu "pressões". Não das dele. Das minhas. Logo eu, já há tanto afastado do champanhe francês.
Tenho de dizer. A ela e a ele. Tanto faz. Conheces pilas demasiado pequenas. Incapazes. Sem capacidade para sodomizar um boneco da Lego! É triste e clássico.
Foda-se, como é clássico.
Há demasiadas tradições para matar. Ainda recolho quem carregue as bandeiras pretas com a inscrição "A tradição é para morrer".
Divago sem termo.
Eu juro que odeio este consultório. Odeio a terapia
Divago.
É maneira de não pensar naquele beijo.
Pobres bonecos. Abusados. Pedacinhos de plástico profanados por pilas inúteis. Pernas de Barbie. É do calor, das hormonas e do que não entendem.

Adivinha-me agora.
Experimenta em desafio. Tenho nomes para dar. Nada me sai. Tenho coisas para acabar. Nada me sai. Só coisas de adulto. Até sopa. Feijão verde, batata, cenoura, alho francês, entre outros. Não ficou nada de especial. Foi a primeira vez e sempre haverá tal desculpa.

Vou sempre gastar dinheiro com os vícios do meu cérebro.
Como adoro ser decadente.
Qualquer estrela gosta.
Cadente.
Molhar o papel com pressa. Com mecha! Nunca é tarde para mim. Mesmo que seja de manhã. Nocturno. Nunca é tarde para mim. Alguém que me diga alguma coisa. Preciso mesmo de companhia. De descarregar, de me esvair. Preciso de me acalmar. Pára-me por favor. Esquece os cigarros.
O que me acelera... esquecer e esquecer. Fugir e fugir. Não me quero confrontar. Perderei de certeza. Vai doer e não me apetece dor. Apetece-me tomar algo. Algo bom. Não um cigarro friamente. Apetece-me ir distante. Viver diante e beijar com luz. Com aquela luz que não se vê.

Adoro esse teu lado negro.

Desta vez sem flores e outros horrores, saio para a cama. Descuido-me no trauma. É o mal da vaidade. Outra vez. Chega a velha forma. Tudo o que me transtorna. Tudo o que me contém. Eu não sei de quem é a culpa.
Eu juro que não sei. Tenho um suspeito imperfeito. Tenho um culpado contado. Tenho um culpado cantado. Eu juro que não sei. Sei que tenho azar. É fácil ter azar. Mas tenho. Eu que não sou de coisas fáceis.
Mas tenho.
Chego sempre atrasado ao que desejo.
Tu também contas.
Esse é o mal. Tu contas sempre.
Com ou sem avisos. Com ou sem viagens. E as contas estão em extinção.
De vez em quando passo-me. Apesar de treinar para Buda, fica o aviso. Não quero saber. Eu tenho cá dentro aquele desespero. Aquele ritmo rápido que me dispara. Aquele nervo nervoso enervante que enerva! Que luta como um vietnamita. A entesar, a partir, a brigar.
Resta no fim de ganhar, aceitar as dores e descansar como um homem de barba.
Amanhã há mais.

O senhor doutor para a semana vai de férias. Quer marcar para quando?






Nota do autor - Este é o centésimo post que eu escrevo neste blogue. Muito obrigado a todos.

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