O Encontro - I

Eu não estou à espera.
Vou esperando.
Eu estou sempre à espera. Como num filme.
Reflexo no retrovisor, um cigarro que acaba e mão procura uma nova estação de radio.
Merda para isto. São todas iguais.
No telemóvel escrevo: Estou no carro.Mesmo em frente ao teu prédio.
"Saio já."
Diferentes noções de "já". Acontece bastante.
Mais vale desistir do rádio. Fico com a poluição sonora. Vigilante e atento à porta que me deixa tão ansioso.
O prédio deixou de ser novo há pouco tempo. Talvez por ser uma rua muito movimentada. É uma zona de escritórios, bancos e restaurantes pequenos. Aqui há pouco tempo e tudo envelhece depressa.
O edifício é alto e parece bem cuidado.
Movimento. Pela porta principal sai uma velhota armada com um saco de plástico numa mão e a trela da fera na outra. É uma cadela pequenina. Parece portar-se bem. Não puxa. Parece passear a dona que já anda com dificuldade.
Nem sempre foi assim.
Olho para o relógio.
Preciso de comprar um relógio mais adulto. Estes bocado de plástico colorido com ponteiros que trago no pulso, são coisas de miúdos. Parece que nunca sai da escola.
Quando levanto o olhar, ai está ela. Espectacular e em camera lenta. Quando me encontra no meio do movimento, deixa um sorriso para encurtar a distancia. Vestido preto. Enérgica e contente por me ver.
O sorriso não desarma.
Penso em sair do carro como fazem os cavalheiros, mas a visão ocupou-me demasiado tempo. Existiram aparições divinas mais curtas e menos iluminadas.
Ela não liga a protocolos e entra no carro.
A porta do lado do pendura abre-se com um "olá" e um beijo alegre, sossega-me.
Tudo brilha. Tudo tem luz. Tudo vive e flui com ela.
- Então vamos? - pergunta enquanto toma posição no banco.
- Claro - respondo sorridente - põe o cinto.
Rodo a chave, abro pisca e mais não conto.

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