terça-feira, junho 28, 2011

O Encontro - parte III

Claro que continua.
- Eu não acredito!
Exclama a Joana baixinho, enquanto tapa a boca.
- Ele está mesmo a fazer-se a ela... E ela gosta. Com o marido ao lado.
Um prato estilhaça-se no fundo da sal. Alguém se apressa a varrer os cacos.
Ela é linda.
É giro olhar para ela e ver aquela excitação infantil, de quem acaba de descobrir um segredo.
- Achas que a madama tem um caso com o Sandro? - Insiste a Joana divertida.
Não me agrada o facto de ele ter memorizado o nome do empregado de mesa.
E ela a dar-lhe.
- Será que ela é daquelas predadoras que persegue homens mais novos?
Olho na direcção da mesa ao lado e o miudo está quieto. Ar de tédio, de olhos enfiados na mesa, retorcendo lentamente a ponta da toalha.
Uma voz funda e grossa interrompe o quadro.
- Até aqui Fernanda? - Pergunta o senhor bem posto calmamente.
A senhora do cabelo pintado dirige o olhar para o inquisidor com desprezo.
Poucos segundos.
Muito fortes.
Mas pouco segundos, e volta ao seu prato colorido.
Que tensão. Consigo sentir daqui.
À minha frente o monologo prossegue.
- Isto agora é moda. Já uma mulher da contabilidade, lá do escritório, já na casa dos 50, mas ainda nos trinques, ali jeitosona, anda com um rapaz de 24, que é carteiro.
Ainda há minutos atrás, apenas desejava que ela não descobrisse que eu lavo os dentes apenas uma vez por dia. No banho e à pressa. Agora já não consigo estar a seguir a conversa dela.
- Estás a ouvir?
- Estou sim. - Minto novamente.
O casal ao lado está em silencio e apenas o pequeno Guilherme finge pilotar um avião. Com a boca faz o som de um avião deitando uma série de gafanhotos.
Parece um repuxo.
Aproximam-se pratos coloridos com o nosso pedido, e desta vez o Sandro não vem sozinho. Acompanha-o um colega baixinho, noviço nestas coisas. Nunca olha para nós.
- Ora este é para a senhora, e este... é para o senhor. Aqui está. Bom jantar, bom apetite e qualquer coisa é só chamar.
Diz o galã.
Diz, sorri e abandona em passo de trabalho.
A conversa salta para assuntos deliciosos e prazenteiros o suficiente para me habituar ao espaço. Tenho fome e o comer está muito bom.
- O vinho também é muito bom. - Diz Joana pousando o copo na mesa.
É bom que seja. Se soubesses o preço dele.
É bom que fiques impressionada.
Preciso que fiques impressionada.
Como nos filmes. Tento ser espirituoso e sorridente. Tento-a fazer rir.
Eu adoro vê-la rir.
Parece que o tempo pára.
- Pai. Porque estás chateado? - Pergunta inocente o Guilherme.
- Eu não estou chateado.
- Ele está sempre chateado - Interrompe Fernanda levantando a voz.
- Se a tua mãe não me tivesse que esfregar com o amante dela na cara - Grita o senhor bem posto.
Só o som ambiente.
Apenas se ouve o som ambiente. O tilintar dos copos e dos talheres quieto.
Tudo em pausa.
Todos os olhos encontram a mesa rapidamente.
Rodo a cabeça.
O Sandro está boquiaberto no canto da sala de bandeja na mão.
- Tu!
O senhor bem posto levanta-se e aponta na direcção dele.
- Anda cá!
A Joana com medo aperta-me a mão e diz-me baixinho para irmos embora.
Eu não respondo.
Eu estou petrificado. Tal e qual o pequeno Guilherme.
Estamos a ver um filme.
Toda a gente na sala está a ver a cena.
- Anda cá cabrão. Vem aqui! - vocifera o senhor bem posto.
Do outro lado e a tremer de medo, o galã pergunta nervoso.
- Está a falar comigo senhor?
O senhor bem posto baixa-se e tira uma arma do casaco.
De repente todo o restaurante se assusta num suspiro em uníssono.
- Toda a gente quietinha. Não se levantem. Não gritem. Não tentem fugir. Todos quietos.
A arma é pratada e tem aspecto de ser cara. Com o suor das mãos do senhor bem posto, parece ainda brilhar mais.
- Guilherme. Deita-te no chão.
O menino obedece-lhe rapidamente.
A Joana aperta a minha mão com tanta força que já nem a sinto. Está a ficar dormente.
Noutra mesa, alguém começa a rezar.
- Caluda com essa merda. Quero silencio. Tu - diz apontando a arma ao Sandro que imediatamente deixa cair a bandeja, assustando os clientes - anda vá.
A mulher do cabelo pintado está lavada em lágrimas, debruçada sobre a mesa de mão dada com o menino.
- Júlio. O que estás a fazer? - pergunta a senhora baixinho - Olha a nossa vida homem.
- Cala-te - responde no mesmo tom de voz.
Eu não me consigo mexer. Ainda tenho o guardanapo na mão direita e o desespero da Joana na outra. Não sinto medo, nem o coração bate mais rápido, nem nada.
Só quero ver o que vai sair daqui.
- Chega aqui meu filha da puta.
O Sandro dirige-se muito lentamente em direcção ao senhor bem posto e armado. Cambaleante.
Ocorre-me a expressão "dead man walking". Parece uma execução. Parece um filme.
- Despacha-te cabrão! - Grita a toda a voz o agressor.
Alguém volta a rezar muito baixinho.
O empregado de mesa chega a cabeça ao cano da arma. Como se fosse atraído para ali. Um palmo de distancia. Mãos ao alto e junto aos ombros. O rosto do galã transformou-se. Parece um miúdo da aldeia, suado e ranhoso, mesmo antes de ser sovado pelo pai.
- Como é que te chamas meu merda? - pergunta a arma.
- Sandro - gagueja.
- És tu que andas a comer a minha mulher... Sandro?
Atrás do inquisidor surge mais um apelo.
- Júlio, por amor de Deus. Pelo Guilherme.
Eu olho para o menino e ele está deitado no chão de barriga para baixo de olhos abertos. Não chora. Apenas escuta com atenção o que se passa.
A mãe dele completamente desarranjada. Desesperada. Insiste.
- Por amor de Deus.
Mas na cabeça do senhor bem posto nada entra.
- Sandro mais uma vez. És ou não o infeliz que anda a comer a puta da minha mulher?
É agora.
Já não sinto a mão esquerda, o restaurante soa como uma missa, a mulher de cabelo pintado chora desalmadamente, o Guilherme fechou os olhos.
É agora.
Ele vai-lhe dar um tiro.
- Sandro. Eu estou a perder a paciência.
- Espere, espere - apela o empregado de mesa completamente molhado e a tremer - eu digo a verdade.

Foda-se.

- Eu e Fernanda somos amantes.

O Julio respira fundo, olha para a mulher e diz.
- Puta do caralho.
Num segundo põe a arma na boca e dispara.
Que estalo!
O estrondo do tiro para o coração de todos. O corpo cai em camera lenta. O sangue e pedaços de crânio espalham-se pelas mesas, pelo rosto das pessoas, pelos pratos, pelo chão.
É tanto encarnado.
Eu não tenho tempo de nada. Sinto a arma a cair no chão. Metálica, pesada e dura. Sinto a Joana a desviar-se da cadeira, sempre em camera lenta, e o corpo grande do Julio cair em cima da minha mesa.
Estou imóvel. Como uma estátua.
Passo a mão pelo rosto e vejo sangue. O mais belo e vibrante sangue que alguma vez vira. Lindo. Melhor que num filme.
Ouço sirenes e desmaio.

Mas não é assim.

Foda-se.

- Eu e Fernanda somos amantes - diz o bravo empregado de mesa.

O Julio respira fundo, olha para a mulher e diz.
- Fernanda... Eu quero o divorcio.
Já não sinto a mão esquerda, o restaurante soa como uma missa, a mulher de cabelo pintado chora desalmadamente, o Guilherme fechou os olhos, ouço sirenes ao fundo.
O senhor bem posto tira a arma da cara do miserável empregado de mesa e pergunta-me.
- Pode-me guardar isto? Agradecia-lhe muito.
Na minha mão direita sinto o peso da arma. É linda.
À minha frente a Joana está sem pingo de sangue.
O senhor bem posto senta-se no chão junto ao filho, da-lhe um beijinho e diz-lhe.
- Desculpa o pai! Gosto muito de ti.
Lindo.
Melhor que num filme.
Ouço sirenes, entra a policia a correr de arma em punho e desmaio.

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