O Encontro - parte II

Um bom romance tem sempre de meter algum crime.
Eu não conto. Prometo que não conto.
De rua em rua até chegar ao restaurante. Fino. Ele merece. Fino é como quem diz. É daqueles onde os novos ricos vão passear a pré-falência. Eles continuam afogados em empréstimos.
Ela sorri e comenta contente.
- Já tinha ouvida falar deste sitio.
À direita está um rapaz. Ele não veste como os empregados de mesa.
- Faça favor. A vossa mesa é já ali.
Vamos nos sentar e respirar fundo. Vamos voltar a acalmar , descontrair e comentar o aspecto dos pratos nas mesas ao lado. Vamos olhar para o menu e brincar com o nome dos pratos. Vamos discutir o vinho para acabar num "escolhe tu" simultâneo.
Risos
- A sério. Escolhe tu. Eu não percebo nada de vinhos - confessa ela enquanto ajeita o cabelo longo.
Eu também não. Eu estou aflito com os talheres. Repito mentalmente, de fora para dentro, de fora para dentro. O vestido é preto. De fora para dentro e eu não posso saltar nenhum prato... senão engano-me.
Abro as mãos, encolho os ombros e digo.
- Joana. Eu também não percebo nada de vinhos.
O sorriso de resposta tranquiliza-me.
- Vamos fazer como num restaurante normal e vamos pedir o vinho da casa - sugere brincando.
- Eu acho que estes restaurantes não têm vinhos da casa e doces da casa. Têm mousse de chocolate, mas nada é da casa.
- Boa noite. Está tudo bem? Já escolheram?
Ele é o Sandro, empregado de mesa, pinta de provinciano e cabelo encaracolado.
Eu desconfio de todas as pessoas que têm cabelo encaracolado. Quanto mais encarapinhado pior. O dele é bastante encaracolado e cheio de produtos brilhantes que deixam o cabelo brilhante, com um ar molhado.
- Ainda não - responde a Joana.
Ele sugere cheio de mil sorrisos e gracinhas parvas. Sugere a um de carne e um de peixe. O vinho sugerido não é muito caro, mas odeio vinhos ribatejanos. São os piores do país.
- Sem ser ribatejano não tem nada? - Inquire a Joana sempre simpática - Não me leve a mal mas não aprecio vinhos do Ribatejo.
Parecemos almas gémeas. Pelo menos no paladar.
O Sandro começa a demorar e assume que existem outras opções.
- Então de que vinhos gosta? Talvez assim eu possa lhe aconselhar melhor.
Ela responde e eu começo a ler francês. Escolho o 4º mais caro da lista. Tem números e tudo. Só quero que ele se vá embora. O perfume do campónio já me começa a dar náuseas.
- Excelente escolha senhor.
Tal e qual como os filmes.
- Vou já buscar.
Estava a ver que não. Chato de merda.
Ela da-me a mão e diz que gosta muito de mim. Eu também gosto muito dela. Isto tá a ficar muito lamechas.
Talvez fosse mais giro ir jantar à beira mar. Uma coisa mais simples e informal. Isto deixa-me tenso. Mais um bocadinho e entro em ataque de pânico.
Na mesa ao lado existe uma dinâmica muito peculiar. Uma senhora já bem senhora, com o cabelo cheio de tinta, tenta impor regras a um menino de 7/8 anos. O terceiro elemento, um senhor bem vestido e mais novo que a sua parceira, come tranquilamente. Alheio a birras e conversas sobre outras pessoas com demasiada tinta na cabeça.
São mulheres com dourados a mais. Quando a única coisa que brilha é o ouro, parece que estás no museu de arte antiga.
- Que tens? Parece que nem me estás a ouvir?
- Desculpa. O miúdo está-me a distrair. Ele é duro de roer. - respondo.
- É tão giro não é? Adorava ter um assim.
Oh não. A conversas dos putos. Não sei como responder... agora é que vou entrar em pânico.
- Gostavas? - pergunta ela linda.
Não.
- Sim. Claro que sim. Adoro crianças.
Minto com tudo que tenho. Vou parar ao inferno na mesma.
Uma voz um pouco mais alta puxa a nossa atenção para a mesa da família.
- Guilherme. Fica sossegado um bocadinho. Já me estás a enervar.
O homem bem vestido olha para o relógio, aconchega a camisa e volta a comer.
- 'Tou farto de aqui 'tar mãe.
- Já vamos. Deixa-me pelo menos jantar descansada.
A senhora até tem umas mamas bem jeitosas. Já foi muito mais bela do que agora. Para ela deve ser duro rever algumas fotografias de juventude.
- Bem ela está mesmo stressada - a firma a Joana.
- Aqui está o vosso vinho. E então? Já escolheram?
Pelo menos olha para mim estupor. Olha-me este merda.
Os meus olhos controlam a Joana e quando volto ao galã de novela mexicana, vejo o mesmo a piscar o olho em direcção à senhora com o cabelo muito pintado.
Olha-me este gajo!
Do outro lado a senhora sorri de volta, cúmplice e comprometida.
O senhor bem posto, continua a comer.
Quando o piroso abandona a nossa mesa, a Joana debruça-se rapidamente sobre a mesa, agarra-me o braço e pergunta.
- Viste?
- Ah pois vi - respondo.

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