A vida de uma M é andar a voar.

Manique do Intendente, 20 de Maio de 2011
03:47

Acabou de acontecer.
E como odeio que isto aconteça. Uma pessoa deita-se, ajeita-se, sente a alma e o corpo a agradecer. Glorioso conforto. Gloriosa cama. É tempo de respirar fundo e pegar num livro.
E ouvir.
Bzzzzzzzzzzz
Merda.
Tenho uma mosca dentro do quarto.
Santo e límpido silencio, longe do cacarejar das galinhas, dos veículos locais.
Merda, merda, merda. Esquece. De segundo em segundo.
Bzzzzzzzzzzz
Tudo em ti é paz e serenidade. Deitas-te de consciência tranquila. Levaste o cão à rua, telefonaste à avó. A louça está um brinco. Tudo foi destruído pela insolente mosca. Acabou de acontecer.
Conforma-te. Se queres sossego terás de a matar.
Mas é complicado.
O corpo está demasiado mole. Cansado de um dia quente e comprido. Os músculos estão fora do horário de serviço. A mente, essa está fragilizada por tamanho atentado. Tu sabes. Terás de matar a mosca.
Ela aproxima-se num provocador e habilidoso voo rasante. Tento acertar-lhe com o livro mas estou demasiado lento.
Ela insiste.
Enxoto, sacudo, abano e sopro.
Os meus sentidos estão fixados na porcalhona. Acompanho-a pelo quarto como um atirador furtivo. Tento a fatalidade, mas ao falhar o ataque descubro à esquerda, outra vilã.
É oficial. Terei de me levantar e caçar em trajes menores.
Jé escolhi a arma. Um chinelo vermelho parece-me bem. Prefiro o tradicional mata moscas mas o calçado terá de servir.
Repentinamente sou um predador. Hábil estratega que tenta encurralar a peça de caça, antes de desferir o golpe final.
O quadro é triste. Um tipo nu, de chinelo na mão, quieto como um faquir, seguindo com os olhos, os errantes trajectos dos insectos pedantes.
Indigentes. Formas diabólicas, seres de Satanás.
Cabronas das moscas. Estava tão bem estendido. Todo eu era prazer e ócio. Eu estava completo.
Isto acontece vezes de mais.
Começou o jogo. Com precisão trato das primeiras duas. Estou decidido a massacrar. Pau e pau. Dois cadáveres. Estas são as mais fáceis. Escolhem sempre o candeeiro, ou a janela para pousar. Depois existem as mais experientes. Geralmente escolhem sítios escuros para se acoitarem. Conhecem a arte da camuflagem. Movem-se apenas quando necessário. Mesmo assim sucumbiram. Uma abatida no armário. A quarta executada no tecto.
Agito os braços à procura de mais alguma. Pego numa camisola para fazer mais vento. Tento assegurar-me da extinção da espécie. Faço-o durante alguns minutos.
Vitória.
O povo saiu à rua. A luta deu os seus frutos. Estou livre das bestas insanas. Viva o meu reino.
Caçadas como esta, fazem de mim um homem. Adquiro experiência e glória. Encaro o sono confiante e tranquilo. Não terei pesadelos.
Ajeito-me novamente. Respiro fundo orgulhosamente e preparo o descanso do guerreiro. Lembro-me de todos os ex-combatentes e acaricio o livro impregnado pela cheirosa paz. Na página abandonada, procuro a frase quebrada e ouço:
Bzzzzzzzzzzz

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