O resgate da minha alma

Desde que me transferi para o campo, os meus amigos lisboetas tentam persuadir-me a regressar à capital. Eles tentam resgatar a minha alma e o meu rasgo, como se estivesse preso noutra dimensão.

Eu também gosto muito deles e tenho muitas saudades. A sério.

A preocupação deles é legitima. Há muito totó que chega ao campo e calça logo uns botins. Os mais camaleões, deixam crescer as suíças, apagando o seu mal fadado e suburbano passado. Ganham novos modos. Ganham uma nova personalidade.
Ora eu não.
Sou puro.
Nado e criado dentro de Lisboa. Não faço parte desse gang.
Outra coisa que os preocupa é a ausência de "horizontes", de oportunidades.
O equivoco deles é normal. A cidade está cheia de campónios que saíram daqui descontentes com as perspectivas de futuro.
É muito mais fino ser escravo em Lisboa. Pelo menos há o bairro alto.
Ora eu também não dou para esse peditório.

E quando eles me perguntam pelo meu exótico e distante quotidiano. "Como é que é viver no campo? Como é que aguentas lá estar? Não tens saudades disto aqui?" Eu respondo:
- É simples. Imagina que vives em Alfama, mas sem policia, sem turistas e sem fado. De resto...

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