sexta-feira, abril 01, 2011

Carta ao sr professor - Eu desisto

Sr professor.
É com imenso desgosto que sou forçado a comunicar que o meu trabalho e toda a investigação sobre aldeões, atingiu o ponto de não retorno.
A culpa é desta vil e perigosa sociedade paralela.
Cedo percebi que seria impossivel infiltrar-me. Seria mais fácil vender a alma ao diabo, que agir e pensar como esta gente.
Não vale a pena.
Está fora das minhas capacidades.
Ultrapassa-me.
Tal actividade seria mais fácil no estrangeiro. E não exagero. Posso até dar o exemplo da língua. Apesar dos locais usarem o português, ninguém sabe bem o que diz e como se diz. Muito menos como se escreve. Muito se deve ao facto de aqui não se usar o dicionário. As palavras podem ter múltiplos significados.
Os locais dominam habilmente esta revolução linguística. Chamam-lhe "desconversar". Há que faze-lo com mestria e sem conteúdo. No meio deste exercício é frequente falar-se muito e sobre o nada. Tal atribui uma nova ideia de valor à mensagem e ao respeito que o interlocutor merece tradicionalmente nas sociedade civilizadas.
Estas dinâmicas sociais, alem de subavaliarem o poder comunicativo dos povos, afastam as pessoas dos seus quotidianos.
Imagine-se um local onde todos falam e ninguém escuta.
O tempo corre saudável afastando a maioria da população da juventude. Mesmo os mais novos sofrem uma pressão social intensa para envelhecerem rapidamente. É frequente imitarem e procurarem carreiras profissionais similares às dos pais, ou no mesmo sector de actividade. Pouco ou nada sabem sobre consciência colectiva, evoluir ou modernizar. Aqui copia-se e imita-se.
A ostentação é pecado instalado, chegando ao ridículo de qualquer coisa servir para tal. É frequente assistir a invejas e comentários por acontecimento nenhum.
Simbioses como estas associadas à fraca condição natural não asseguram desenvolvimentos humanos saudáveis. É com pesar e urgência que peço atenção para assuntos tão urgentes.
Esta missão transformou-me.
Ao reler os meus diários, onde registei contactos com os nativos, noto que não fiz progressos.
Consigo descrever o modo de vida, as características comuns aos indivíduos, mas nunca compreenderei, os motivos.
A maneira como as mulheres mais velhas comunicam é exemplo disso.
Apesar de dotadas de tecnologia actual, como o telefone, o grito guinchante continua a ser a forma predilecta de sociabilizarem.
Passo a explicar.
As conversas entre as senhoras aldeãs obedecem a um protocolo.
Um esquema de tons e volumes que variam consoante o tema abordado, a hora do dia em que se encontram, mas não consoante a distancia a que se encontram uma da outra.
Confuso?
Primeiramente existe o guincho de reconhecimento. É usado para trivialidades, desejos de bom dia, boa tarde ou inúteis conversas sobre o tempo.
Quando uma das senhoras precisa de falar, a situação evolui para para uma troca de opiniões mal fundamentadas e pouco esclarecidas. Basicamente, estes diálogos tem causa nos temas da actualidade, abordados na televisão.
Se este conjunto de indignações tomar forma, é perfeitamente natural que resultem em grandes e exageradas exclamações. A admiração é expressa física e sonoramente. O espanto aqui é frequente.
Chegamos à derradeira fase.
Depois da gritaria sobre o circunstancial, o debate sobre o actual, a admiração admirada admirante, atinge-se a fase do "dizer mal".
É o apogeu.
Para os mais distraídos, esta é a una etapa onde o volume de voz das participantes baixa cautelosamente.
"Elas até não são dessas coisas" mas este momento é o pico mais alto na vulgarmente chamada "conversa de velhas".
Funciona assim: Larga-se a bomba (a historia), forma-se indignação, admiração, surpresa e finaliza-se com o acto com o "cagar da sentença".
Esta é a altura onde as senhoras, acham e julgam sobre coisas que não lhe dizem respeito e para as quais não têm qualquer espécie de habilitação ou moral.
Estes limites civilizacionais não colhem junto a esta população. Alegam que têm de falar de alguma coisa. Que o anonimato é inexistente e completamente sobrevalorizado "pelos de fora".
Uma típica conversa de velhas obedece a códigos fracos e muitos acidentes gramaticais. Crimes linguísticos. A exemplificar. "Rata de igreja" significa beata. Outro. Uma pessoa quando atinge um certo grau de prazer fica "sastesfeita". A lista é longa, muito divertida e extenuante.
Os volumes utilizados , a sua poderosa dimensão e toda a poluição sonora que dai advém, estão relacionados com três factores.
1 - Os tons de voz estridentes e irritantes. Timbres que jamais serão aceites pelo ouvido humano.
2 - A idade também ajuda. Alem do definhar sensorial, uma vida inteira entre frequências tão violentas e as maquinas agrícolas dos maridos, deixa marcas.
3 - Para finalizar temos a cultura vigente. Aqui toda a gente fala alto e mais alto. Fala-se por cima.
Imagine o professor uma agradável tarde de primavera, polvilhada pelo cantarolas das aves, harmoniosa e quieta, corre o risco de se tornar num caótico conjunto de ecos guinchantes e despropositados. Apenas, porque uma vizinha precisa de dois ovos para o arroz doce.
Parece paradoxal mas acredito que os campónios gostam de barulho.
Nesta área de estudo, a sociabilizarão da espécie é feita essencialmente em espaços comuns, como escolas, tabernas ou cafés. Onde há convivo há discórdia, e num regime onde o "falo mais alto que tu" prevalece.
Juntamos esse quotidiano à paixão insana e irracional aos foguetes. Não há festividade ou alegria que passe à estupidez de um foguete. Nas modernas sociedades ocidentais deste século, não se festeja com explosões a não ser que esteja integrado num espectáculo. Insisto. Quando um primeiro ministro toma posse, ou quando surge o golo da nossa selecção, nem o politico nem o jogador que marcou o tento, deitam fogo à peça. Ninguém anda a rebentar nada. Festeja-se como as pessoas e está muito bom. Se esta moda rude alastra o que seriam das maternidades, só para dar um exemplo.
Para finalizar esta exposição quero ainda fazer notar o impressionante numero de tractores, moto serras, moto quatro, motos disto e daquilo, corta-relvas, aspiradores industriais, geradores, camionetes, camiões, compressores, carros velhos, martelos pneumáticos, serras eléctricas para madeira, pedra e o que mais for, rebarbadoras, etc, etc, que esta gente possui.
Concluindo, até porque a missiva já vai longa
A poluição sonora no meio rural é de endoidecer.
Quando estamos a desfrutar de um pacifico final de tarde passa um camião cheio de porcos logo seguido por uma camionete cheio de malta da pêra.
Tenho de ir.
Tenho alguem aos gritos ao portão. Mais uma pessoa que ignorou a campainha.

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