quinta-feira, março 24, 2011

O dia depois do 25 de Abril

Eu não voto. Aliás nunca votei. Não tenho cartão de eleitor e enquanto for um homem livre não o terei.

Desde pequeno que me interesso por ciência politica, ideologias, modelos democráticos, e coisas similares que envaidecem os civilizados.
Lia com vontade as enormes páginas dos jornais que meu pai comprava. Revistas e tudo. Ainda menino sabia como funcionava a assembleia da republica, as eleições, o nome das principais figuras dos partidos políticos, os poderes, o serviço publico, a essência mais nobre desta actividade fascinava-me. Adorava ver um bom debate, onde tudo é visceral e convicto. Tanto na televisão como na rádio.
Era isto que eu fazia quando dava descanso à bola ou aos carrinhos .

Mas o conteúdo será sempre mais importante que a forma.

Passado um tempo percebi que a politica do homem branco é escura mas banhada a ouro.
Percebi ainda que a politica serve muito pouca gente.
Que apesar de viver em liberdade, nunca me senti verdadeiramente livre.

No Lyceu, percebi que ainda havia gente de esquerda e de direita.
Achei antiquado, mas a idade é própria de manias. Todos gostam de intervir e dar nas vistas. Em Portugal, todos têm clube. Na politica não havia de ser diferente.
Compreendi que os meus pares, apenas conheciam o instrumento do voto, como via única para intervir politicamente. Naquela altura ninguém tinha idade para votar, mas as convicções eram imensas.
Quando adolescente, fui convidado a fazer parte de diversos partidos políticos. Até me ofereceram dinheiro para tal. Nunca me filiei em nada, nunca participei em comício nenhum, nunca tive sindicato.

Num jantar em casa de um amigo numa bela noite de primavera, questionaram-me:
- Em quem é que vais votar?
- Em ninguém. - respondi.
- Votas em branco?
- Não. Não vou votar. Não acredito no nosso sistema representativo. Não votarei. Não me sinto representado no parlamento.

Todos me atacaram e assinalaram que o voto era a maior conquista da liberdade. Que é um direito, um dever, que tinha de rever a minha posição. Que deitava por terra tudo o que foi conseguido no 25 de Abril.
- O que foi conseguido na revolução não é um dado adquirido - alertei.

Ontem provou-se que chagamos a este cenário apocalíptico por culpa de todos.

Que faltou pensar o dia seguinte.
Faltou visão sobre o futuro.
Que não existe liberdade de facto. Os tribunais são lentos, corruptos, ao sabor das vontades dos senhores juizes.
Tenho liberdade para me indignar e falar, mas não tenho liberdade para ter justiça.
Que os partidos políticos, o maior centro de corrupção no nosso país, se aproveitam deste sistema para se servirem. Todos sem excepção. Repito sem excepção.
Simplesmente porque o sistema é fraco. Está desactualizado e não corresponde às necessidades das pessoas.
Que a sociedade civil é nojentamente subserviente, acomodada e inútil.
Que o povo português não tem memória ou sentido de auto-estima.
Que o povo sereno, ordeiro e unido, não tem sentido de ridículo.
Ele não pensa com a sua cabeça e não tem a espinha dorsal.

Eu escrevo verdade.
Escrevo com dor e vergonha por nunca me ter enganado. Com o espírito de dever comprido por nunca me ter calado ou rendido à triste maioria.
Escrevo livre porque "eu não me rendo, eu não me vendo, nem por ideais nem por dinheiro. E como sou e quero ser sempre assim" prometo ser fiel à minha cabeça, mesmo vivendo num bordel, sujo e mal fadado, cheio de putas, chulos, cornos e cowboys.

O dia depois do 25 de Abril de 74 está a ser uma grande merda. Está a ser uma palhaçada. Uma brincadeira de mau gosto.
A 24 de Março de 2011 não existe absolutamente nada que me prenda a este país. Que me orgulhe de ser português.
Dá-me asco.
Agonia-me tamanha estupidez. Tanta irresponsabilidade.

Tudo o que podia correr mal correu e ninguém foi penalizado.

Não devia haver direito para os que são filhos da puta por opção

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