O verdadeiro ninja não usa colãs

- É como te estou a dizer pá. O Verdadeiro ninja não usa colãs. Usa os tomates.
Do outro lado uma mão tenta segurar os risos descontrolados.
- Usa os tomates e ataca com pujança. Olha-me este gajo a rir.
Escorre uma lágrima. Compõe-se a camisa fora de moda. Com a mão direita acentua-se o tradicional risco ao lado.
- Epá mas tu tens que me dar razão. É o poder do ninja. É o código de honra do ninja. Apensas se sendo ninja, podemos ser nós mesmos.
Andando em direcção do divertido par, chega uma miúda Loura. Com as suas próprias singularidades. Vem distraída com tecnologias, abanando-se o suficiente. Vem de passo inocente, completo e estudado para não se notar. Não são horas. Tão retesadas curvas nunca chegam aos olhos de mansinho.
O sol e a roupa não ajudam. Contornos, sombras e brilhos demais. O vento malandro embala e envolve. Aproveita-se da sua força, para espalhar aos mortais, aquele perfume de amor.
Como uma pedra no vidro.
- Olha pá'quilo. Foda-se.
- Muito jeitosa a menina. - Reforça o não-ninja.
Seis passos depois.
- Bom dia. Eu venho para a minha 1ª aula de condução.
- Ah, é comigo mesmo. O carro está ali. Venha comigo se faz favor. - Responde o ninja.
Enquanto os dois se afastavam, depois de ter sido confrontado pela piscadela de olho do colega desabafa baixinho.
- Há gajos com sorte.

É só uma cena.
É só a cena do costume.
Ontem à noite li por pensamentos alheios: Amanhã. A minha 1ª aula de condução.
Em baixo os batidos e imbecis comentários machistas do costume. "A ver se amanhã não saio do passeio", "Mulher ao volante perigo constante", "Isso vai ser a que horas. Homem prevenido vale por dois".
Lembrei-me de outra coisa.
Lembrei-me que existe um fenómeno de classe associado aos instrutores de condução. São todos completamente tarados.
Rebarbados.
Estão sempre com a fantasia que param o bólide num sitio escondido, e que a sua sensual aluna lhes sugere cenas brutas. Sexo. Pornografia sem cameras.
Não é preciso ser sensual. Eles não são esquisitos. Pode ser uma qualquer.
Toda a gente que tirou a carta refere que o seu instrutor de condução "era um tarado da pior espécie"
Mas há algo mais grave. É que se aceitam trocas, e há pagamentos em géneros. Não é assim tão invulgar subornar um instrutor, ou um examinador e quando não há dinheiro, há sempre o corpinho.

O assédio sexual é coisa normal. Ninguém liga.
Mãozinhas na perna, festinhas no braço, sorrisinho de lobo mau, frases tipo "há mais manetes".

Cuidado.
Cuidado que eles têm comichões em sítios esquisitos
Eu imagino. Conhecendo as vestes da rapariga em questão. Trapos ondulantes. Simples.
Vê-se demasiada pele para um carro de instrução. Os volumes são por demais insinuantes. Num tribunal talvez, mas ali... numa proximidade física tão intensa e urgente.
Eu imagino

É por causa disto que os ninjas não usam colãs

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