O Divã - II - A tradição é para morrer




Nos meus tempos de anarquista de liceu fartava-me de escrever a frase "A tradição é para morrer". Paredes, cadernos, nada escapava. Queria mesmo que o mundo lesse a frase e despertasse da apatia em que se encontrava.
Actualidade da obra? É total.
Na ultima noite de natal depois de alguém finalizar um discurso com a afirmação "A tradição é para manter", assisti ao resto do "partido" acenar afirmativamente e repetir baixinho. Tão convictos quanto possível.
A tradição é para manter, porque sim e porque é tradição manter a tradição. Por cá tentar-se-à manter o costume mesmo que o hábito seja ridículo.
Mesmo que seja estúpido.
Mesmo que nos atrase e que nos deixe ao lado do mundo.
Nada será tão importante como continuar a fazê-lo.
Nunca como hoje será importante vingar a inteligência e rebentar com o instituído. É hora de enaltecer a personalidade e abandonar os rebanhos de lugares comuns. Foram estas convenções que aniquilaram o espírito humano, que desagregam sociedades e os seus valores
Que morra a tradição.

O mocho concorda comigo. Nota-se pelo seu olhar.

- Mas explique-me. Que tradições quer você matar? - questionou com voz baixa.
- As touradas, os ranchos folclóricos, a ganga, a violência doméstica, as bandas de covers, a cunha, as eleições, a igreja, os trajes académicos, as prestações, o bacalhau cozido no natal... Eu sei lá... Gostava que as pessoas tivessem um cérebro activo. Que pensassem... Merda... que pensassem...
- Você acha que as pessoas que apoiam esse tipo de tradições não são seres inteligentes? - perguntou provocador.
- Deixe-me adivinhar. Você trajou na faculdade. Andava mascarado de pinguim-morcego a fazer serenatas as miúdas que queria comer - disse enquanto me ria.

Eu já percebi que o meu terapeuta é maricas.

- Não é isso...
Levantei-me num só movimento sentando-me no divã.
- Trajou ou não? - insisti interrompendo.
- Trajei, mas não é por causa disso que...
- Eu sabia - disse interrompendo novamente - Você é daqueles que têm de estar integrados. Tem de fazer parte. Você é pedaço de um todo. Uma generalidade. Um pobre que apenas se realiza através dos outros... Da imagem que terceiros têm de si...
- Aqui quem faz análise sou eu - disse irritado - O que eu estou a tentar exprimir é que as tradições são, num ponto de vista social, o que nos destinge... O que nos difere. Sem elas não temos identidade.

"Ela" está louca... uhhhhhhhhhhhhh...
Confesso que a minha atitude foi rude e provocatória.
Mas também lhe pago para me divertir.
E ataco aproveitando embalado pela reacção do meu interlocutor.

- Identidade em relação a quem? E de um ponto de vista inteligente? O que são as tradições? Tenha dó. Se tivéssemos de manter a tradição para tudo estaríamos na idade da pedra. Para torturar um animal já podemos alegar que é tradição. Que é cultura. Que é arte. Filhos-da-puta. As tradições têm de morrer.
- Deixe-me só perguntar. Como é que as vai liquidar?
- Com o cérebro doutor. Com o cérebro.

O mocho concorda comigo.
Solidariedade com todos os da sua espécie, que foram abatidos para ornamentar uma sala de estar. Embalsamados e em eterno desgosto.

- E se nos deixássemos destas picardias e nos focássemos em si - atirou com honradez.
- Desculpe - respondi sincero - Eu sei que sou viciado em retirar reacções das outras pessoas.
Ele riu e disse calmamente:
- Sim é verdade. E é muito bom nisso. Mas é altura de me contar o que veio cá fazer afinal. Certamente não me paga para me atiçar e por em causa o meu profissionalismo.
Um silencio escurece a sala.
A minhas mãos esfregam-me a cara, ajeitam o cabelo, engulo em seco e com o ar mais sério do mundo digo:
- Sr. doutor. Porque é que eu sinto que este Mundo não é para mim?

Do outro lado um suspiro fita-me intensamente.
Coloca o caderno bordô em cima da secretária, debruça-se em minha direcção e diz-me calmamente:
- Então vamos descobrir porquê.

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