terça-feira, outubro 19, 2010

A senhora doutora

Há dias apareceu-me um caroço no antebraço.
Como bom hipocondríaco que sou, fiquei cheio de medo. Entrei em modo doente. Imaginei todos os cenários que consegui.
Fiquei ansioso. Ansioso pelo dia de hoje. Ansioso por ir ao médico.
Consciente cidadão, dirigi-me a um centro de saúde publico e fui atendido com prontidão e eficiência. As coisas corriam bem demais. Como não desconfiar. Só 2,50€. Então e as mirabolantes histórias do nosso serviço nacional de saúde que inundam telejornais? Queres ver que vou ser atendido antes do tempo e tudo?
Assim foi.
Ao fundo, uma senhora diz o meu nome em voz alta.
Entrei no gabinete senhora dona médica, cheio de civilização e boas maneiras. Sentei-me após pedir licença.
- Então? - Perguntou uma senhora gorda.
Nem bom dia, nem nada? Mas que é isto?
Em fracções de segundos vi o filme todo. Médica a caminho da reforma, sem orgasmos há anos, descontente e aborrecida, com a atitude típica da maior parte dos médicos em Portugal. O síndroma, "Eu sou importante porque acabei medicina. Eu sou Deus. Eu ganho bem e sou Deus. E se me chateias eu não faço o meu trabalho e tu morres. Não há nada que me possa acontecer por ser uma besta ou por ser negligente. Eu sou Deus e os meus filhos terão a mania e serão umas bestas também."
- Apareceu-me um caroço no antebraço esquerdo, há alguns dias. - Respondi.
Sem uma palavra esticou-se dobre a secretária e tocou-me ao de leve no local. Levantou-se, e lavou as mãos num lavatório atrás de mim.
Mas que merda é esta. Só depois de me tocar é que lavou as mãos. Porque é que não lavou as mãos antes?
Voltou ao computador e começou a teclar apressadamente.
- Não me pode prescrever análises? - Perguntei ingenuamente.
- Não. Isso tem que ser com o seu médico de família. - Respondeu com um sorriso arrogante - Vai fazer uma ecografia e depois volta cá.
Cabra de merda. Claro que podias. Não queres é teclar mais um bocadinho.
Em menos de 3 minutos, entrei e sai da sala da senhora doutora. Ainda pensei em pedir o livro de reclamações mas a fila no guiché metia respeito.
Não percebo nada destas tretas do médico de família e da área de residência. De custos e cortes. Se o exame é comparticipado ou não? É desmotivante e desgastante. Vou ter de voltar a Lisboa para fazer o exame. Eu não tenho que estar doente quando o sistema quer. Eu simplesmente fico doente.
Fique doente, mas só na sua área de residência.
Abandono o centro de saúde mais doente e confuso. Não percebo o funcionamento.
Eu se quiser ainda posso dar um chapada na médica. Posso fazer queixa dela. Cuspir-lhe na cara. Posso indignar-me e acusa-la de incompetência. Posso agir judicialmente.
Mas... e quem não pode?
A maioria dos utentes do não podem.
E a maioria dos utentes precisam de ser respeitados.
A próxima vez que um médico ser armar em Deus comigo está lixado.
A próxima vez que me faltarem ao respeito num serviço nacional de qualquer coisa ajo politicamente.
No serviço nacional de saúde, ninguém parece interessado em servir.
Eu também não estou interessado em pagar impostos.
Tudo para o offshore.

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