O Divã - I - As madeiras


É esquisito estar deitado neste divã.
Em plena luz do dia. Acordado e a falar do que não quero.
Os meus olhos viajam por todos os pontos do consultório.

- Não o irrita? A mim tira-me do sério. Os escritores nunca dizem mal uns dos outros. Alguém que venha dizer que Os contos do Gin-tonic é o livro mais parvo de sempre.
- Tenha calma. Dificilmente o livro terá esse recorde - respondeu divertido.
- Sério - insisti - Você já leu aquilo? Se eu fosse escritor ficava envergonhado. Desprestigia toda a literatura nacional.
- Mas lembre-se que o livro teve bastante sucesso.
- Isso depende da noção de sucesso de cada um.
- E você? Acha-se uma pessoa de sucesso?

Na ultima prateleira da estante, está uma estatueta de loiça. Um mocho que tudo vê e que tudo ouve.

- Lá está. Isso depende da noção de sucesso de cada um - brinquei.
- Vá lá. Faça um esforço. Acha que o sucesso está condicionado pela opinião de terceiros? Fale-me disso. - pediu pacientemente.

Atrás da ave, uma colecção de imponentes livros azuis e dourados, obras de Julio Verne.

- Sinceramente. Pensar nisso é deprimente. O sucesso, ou o conceito em si, é sempre condicionado pelos outros. A própria ideia subjacente, é uma comparação entre indivíduos consoante as metas sociais que cada um vai atingindo, ou não. Há quem ligue e há quem não se importe. Tal e qual as mulheres. É uma questão de segurança. Quem é mais seguro lida melhor com esse tipo de pressões.
- Vejo que já passou umas horas a pensar nisso - disse enquanto escrevia no bloco bordô.
- Quem é que não pensou? Estamos em 2010... Tudo é performance. Tudo são resultados.
- E com as mulheres... considera-se um homem de sucesso?
Sim. Claro que sim. É óbvio. Sou macho. Um garanhão cobridor, potente e viril.
- Pode-se dizer que sim? - respondi a medo.
Se ele fosse esperto dizia-me já: Isso depende da noção de sucesso de cada um.

Aquele mocho é mesmo giro.

- Nunca teve dificuldades emocionais? No ponto de vista de se relacionar e de viver uma vida amorosa normal, digo.
Uma vida amorosa normal? O que é isso? Será que existe?
- Não. Dificuldades não. Julgo ter relacionamentos normais.
Minto só para saber onde a merda da conversa vai dar.
Logo eu que só conheço gente doida.
- Então essa parte não o preocupa. Está perfeitamente capacitado para ter uma relação e suportar os pontos menos bons que vão surgindo com o passar do tempo.
- Como assim? - perguntei intrigado.
- Há de concordar que os namoros e os casamentos têm altos e baixos.
- Sim, concordo...
- Por exemplo. Uma traição. Há pessoas que não conseguem superar a quebra de confiança.
Sem querer sai-me uma gargalhada.
- De que se ri? Não percebo.
- A quebra de confiança... Isso não existe. Todos os dias os casais perdoam mentiras uns aos outros.

O candeeiro tem bom aspecto. Deve ter sido caro.

- Agora sou eu que não estou a entender - disse tirando os óculos de massa.
- Isso é coisa de novela. De romance de 5ª categoria. Quebra de confiança. Que disparate. Não é isso que faz doer. O que magoa é o prazer que a pessoa traidora sente. A excitação que se consegue traindo.
- Continue.
Já estou a falar com as mãos e deixei de reparar na decoração.
- Trair é empolgante. Quebra rotinas. Quebra este aborrecimento que se apodera das nossas vidas. Dá nervo. Faz-nos sentir vivos. Ser traído é ser chato. É não conseguir satisfazer o cérebro ou o corpo de quem gostamos. Alem disso trair é natural. Quantos traidores e traidoras conhece?
- Sinceramente não me estou a lembrar de muita gente. - respondeu pensativo.
Mentiroso.
- Aposto que em pouco tempo vai arranjar uma lista de pecadores. Trair é normal. É vulgar. Acontece constantemente. Todos os dias em todos os lugares. Está na nossa natureza. Porque é que é tão condenado socialmente? Porque se criou a conversa do "não cobiçarás a mulher do próximo"? As razões e causas para trairmos são infinitas. É tão comum que chateia.
- Vejo que não acredita na fidelidade? - ironizou.
- Acredito. Claro que acredito. Mas sei que toda a gente já foi traída de uma forma ou outra.
- Sim... traído por um sócio, por um amigo, por um colega... - interrompeu-me delicadamente para me instigar o desabafo.
- Não. Eu digo que já foi traída por uma namorada, pela mulher, por alguém que partilhe o mesmo "projecto amoroso"... vá...
Fazer o gesto para as aspas é parvo. Estamos a por o nada entre aspas. E continuei.
- Sendo generoso... pelo menos uma vez na vida toda a gente é traída por alguém de que se gosta - insisti.
- Mas porquê tanto cepticismo?
- Não é descrença. É cientifico. É o que corroí a alma. É a mentira, o impulso, o momento, a justificação ou ausência da mesma. Tudo doí. Eu lembro-me da primeira vez que fui traído. Tudo mudou. Certamente aconteceu o mesmo consigo.
Adoro confronto.
- Não estamos aqui para falar de mim pois não?
- Estamos aqui para falar do que tiver de ser - desconversei.
- Se quer mesmo saber, penso que nunca fui traído - suspirou.
Bem tu sabes.
Para pagares esta sala tiveste de passar aqui muitas horas.
A ruindade está-me no sangue.
- Ora seja você a excepção a regra. Pouco me importa. É apenas a minha maneira de ver as coisas.
- Muito bem. Mas não acha que essa atitude o compromete quando pretende ter um relacionamento mais profundo?
Não sei. Talvez seja imaturo a esse ponto?
Este talvez diverte-me. Quase que acredito no que estou a dizer.
Só quase.
- Eu sei que gosto de mulheres bonitas. Não vou mentir. Sou certamente uma besta infantil por isso.
Do outro lado soa uma sonora gargalhada.
- Não é isso de que estou a falar.
- Eu sei do que está a falar. Simplesmente não me apetece falar - confesso solene - Não quero partilhar o meu sofrimento e muito menos o meu âmago. Desculpe mas prefiro andar disfarçado. É muito melhor que esmiuçar as farsas da nossa vida.
- Eu compreendo. Mas então porque veio cá?
- Por nada... Sinceramente não sei. Talvez ainda não esteja preparado - respondo-lho nos olhos.
- Como posso ajuda-lo, se não está disposto a receber a minha ajuda?
Um encolher de ombros contrai-me o corpo e fecha-me o espírito.
 
Levantei-me, desejei boa tarde com simpatia e sai do agradável consultório com quase tudo o que tinha levado.
Mas só quase.

No passeio uma data de gente transporta uma data de coisas para uma data de sítios.
É estranho.
Parece que sou o único que não tenho pressa, nem lugar para chegar.

O consultório é muito bonito.
As madeiras são muito vistosas e agradáveis. Gostava de ter móveis assim.
Nem sei de que tipo de madeiras são. Os meus pais saberiam de certeza. Eu não percebo nada de madeiras.
Os meus móveis montam-se todos com uma chave sextavada.

Às mulheres bonitas que se faz tarde.

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