A conta no banco

Como todas as pessoas ricas, também eu tenho conta no banco. Aliás. Tenho contas em vários bancos porque sou rico e não acredito na crise. Tenho riquezas.
Na semana passada dirigi-me a uma sucursal de uma banco qualquer com logótipos verdes e um ar modesto.
"Isto é demasiado simplório para uma pessoa tão rica como eu." Pensei.
Há que diversificar. Assim saltei a barreira do preconceito e fui atendido por uma pessoa com óculos.
Vê mal. Talvez seja míope. Se calhar é de trabalhar com notas e ecrãs de baixa qualidade. As letras são muito miudinhas. Os bancos devem ser geridos por pessoas muito sovinas que tratam mal os olhos dos seus colaboradores.
Uma pessoa com óculos. Não muito caros. Tem pinta de mulher casada e com filhos.
"Boa tarde" disse olhando para mim.
Expliquei que queria abrir uma conta à ordem no banco e que tinha ido lá essencialmente para isso.
Sempre quis assaltar um banco, como se faz nos filmes americanos, mas aquele balcão tem um ar demasiado pobre. Não quis arriscar prisão por uns milhares de euros. Ainda pensei em contar isso a senhora de óculos mas tive medo. Imaginei-a a pressionar um botão de alarme debaixo da secretária.
"Eu vou só buscar os papeis"
No fundo da sala está uma outra senhora. Cabelo pintado de louro. Foi certamente muito bonita nos anos dela. Casou, engordou e já trabalha ali há demasiado tempo. De certeza.
- É uma pena - deixei escapar em voz alta.
- Como disse? - interrogou a senhora dos óculos.
- Nada, nada. Então a papelada?
Eu nunca tinha assinado tantas vezes seguida. Senti-me de volta à primaria. O meu nome completo dezenas de vezes. Parecia um exercício. Talvez um castigo.
Multibanco, homebanking, declarações disto e daquilo.
- Qual é a sua profissão? - Inquiriram os óculos.
A minha profissão? Onde é que esta mulher vive. Estamos em finais de 2010. As pessoas não têm profissões. Têm situações precárias. Empréstimos para pagar.
No papel formatado para nos envolver no grande caos financeiro, escrevi: Rico.
A minha profissão é ser quem sou.
- Filiação? O que é isto?
- É o nome do pai e da mãe. Engraçado, que os mais jovens nunca sabem o que isso é - Gracejou a senhora das lentes.
- Sabe é que nós temos trauma com partidos políticos - rebati fleumaticamente.
Sabes o que é isso mas continuas a passar horas de volta de uma fotocopiadora. Gorda.
(É o meu lado negro. Não liguem.)
- Agora faça uma rubrica aqui e aqui - apontando com a ponta da esferográfica.
Eu sigo todas as instruções e procuro apressar todos os procedimentos.
Recebo uma capa com uma resma de papel. Cópias, instruções, facturas, até um ridículo e foleiro porta cartões.
Ter conta no banco é muito pouco divertido. A experiência é aborrecida. Ecologicamente é um desastre. Alem disso estamos a pagar a gatunos para guardarem o nosso dinheiro.
Complicado, não é?

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