O peixe-aranha, rock evangélico e bolinhas de cuspo

Estou desempregado e ele quer estar. Estou deprimido e cansado. Aborrecido com o mundo e com a tecnologia. Ele diz que a culpa é dos americanos e dos seus foguetões parecidos com pilas gigantes. Eu digo que ele é obcecado por genitália e pornografia. Para ele tudo no mundo ou é uma "gruta" ou um "mastro". Estou desempregado e ele só quer largar a padaria e continuar a fornicar as amantes do chefe dele.
- Têm todas óculos. O Lopes deve ter algum fetiche com lentes.
Uma gargalhada e milhares de migalhas. Partículas e migalhas e saliva, pelo sofá, pela mesa e pelo tapete. O aspirador está na despensa. Está velho. Gostava de comprar outro mas estou desempregado.
- Noutro dia, quando passei lá à tarde para receber, aquela mais magrinha teve de o gramar. Que boa pá. Muito muito boa.
Imagino. Deve ser um espanto. Ele tem um péssimo gosto. Tudo é vulgar e vulgarizante.
- Fomos para o anexo. A pêga estava de saia. Apliquei-lhe logo o movimento do peixe-aranha. Digo-te, ela não é nada má. O negócio ficou intenso.
- Movimento do peixe-aranha? - Interrompi.
- Sim pá. Só dar aquele jeitinho à cueca. Puxas para o lado e zuca. Lá dentro. Ataque rápido.
Como é que alguém se digna a nomear tais coisas?
Ele ri e faz zapping e pára sempre que vê um decote.
Olho para o telemóvel frequentemente. Estou a espera de uma mensagem. De alguém que me ligue e acabe com aquela migalhada.
- Mas eu não vou continuar a cena ninja com ela. Estas gajas são assim doidas para cobrir, porque andam naquelas igrejas maradas. Protestantes, evangélicas e do 35º dia que testemunharam tudo. Malta dos peixinhos nos carros. Merdas à americana. Nunca viste?
Eu concordo com a cabeça e volto a olhar para o telemóvel.
- Foda-se e as bandas que ela ouve? Só merda. Cenas dessas do evangelho Esses pastores todos, têm bandas de rock. Rock? Uma parvoíce. Coisas mesmo sem jeito nenhum. Canções zero, ideias nicles. Depois ninguém toca um caralho e são feios como tudo. Aquilo para gente abençoada estão bem fora da graça de Deus.
Levanto os olhos do telemóvel, olho para ele e pergunto?
- Rock do Deus?
- Rock do Senhor do Jesus e do Pastor. Sério?
Ajeito o corpo no sofá e insisto.
- Queres ver que eles também andam de skate?
- Oh. Isso tudo. Doidinhos mesmo. A apelar à vida sem drogas e ao amor. Tudo cheio de castidades e de respeito. Uma cena mesmo da cruz. Isso agora está tudo na moda.
Invejei e tentei pecar por categorias, mas as migalhas acumulavam-se. Lá fora havia um mundo mais agressivo para o meu futuro filho. Hoje bandas de rock da merda, amanhã guerra santa. Cruzadas VIII - O regresso da verdade.
No ecrã uma apresentadora mamalhuda, da beijinhos a duas dúzias de crianças. Eu já sei que ele vai comentar.
- Olha o cabrão do camera. Deve estar a vir-se em seco. E o realizador. Bloqueou certamente. Quem é que está a olhar para os putos?
Podes crer que há muita gente a olhar para os pequenos. Pelo menos quero acreditar que sim. Também eu não consigo desviar o olhar do decote da apresentadora.
Sair com uma gaja destas deve ser de sonho. Agora não que estou desempregado! Depois não que continuarei pobre. Depois não que continuarei feio.
- Esta gaja tá cá com um aço. Não lhe perdoava nada. Era até fazer ferida.
Estas mulheres nunca me conhecerão. São assediadas em demasia. Não olham para o lado. Têm sempre alguém a olhar para elas. Também elas devem ir à igreja.
- Era um consolo.
- Era, dizes bem - digo eu baixinho enquanto olho novamente para o telemóvel.
Já não me diz mais nada. Está chateada comigo por ter gritado com ela. Vaca de merda. Puta. Logo agora que estou desempregado. Onde está o apoio?
- Digo-te já que é perfeitamente possível mamar um petisco destes. Nunca se sabe.
A vassoura está atrás da porta da casa de banho. Ficou lá quando estive a fazer a barba. Ele que nunca mais pára. Às vezes gostava que ele desaparecesse.
- Curte só.
Uma bolinha de cuspo é soprada em direcção ao nervoso ecrã. Parece uma pequena bola e sabão. Quando chega às cores rebenta.
- Eh meu! Não faças isso à televisão - Protesto - Olha-me essa javardice.
- Vá lá. Tu eras o campeão desta arte! As tuas bolas de cuspo viajavam sempre muito mais.
Pois era.
Agora? Perdi toda a ambição.
Agora estou desempregado e fechado contigo numa sala a ver programas estúpidos. Números de telefone em rodapé. Agora espero cientificamente pelo mensagem.
Talvez ela me queira desempregado.
Sinto uma dor no ombro. Alguém se vira para mim e pergunta.
- Escuta lá? Estás deprimido?

Comentários

Anónimo disse…
muita bom. Márcio
Daniel disse…
Obrigado maninho. Um abraço.
Quando derpa irmos po golf ÀMOÃNN avisa.

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