segunda-feira, setembro 13, 2010

Já não há cartas de amor

Já não há cartas de amor.
Pelo menos das verdadeiras. Das que falam de amor verdadeiro. Do tempo onde não existem telemóveis. Por a chave do correio na ranhura, amachucar a publicidade e ficar com aquele sorriso felizmente estúpido. A magia da surpresa. Ansiosos entramos em casa e apressadamente lemos as linhas mais ternas. Puro romantismo. Mariquices apaixonantes.
Tenho saudades do que é genuíno. Do que é puro. Tenho saudades das pessoas.
- Eu não sou muito dado a essas coisas de brincar aos vampiros! Se ela quer festa desse tipo, tem de tar limpinha.
É daqueles gajos que tem opinião para tudo. Malta da calça de ganga. Devia ter escrito na testa - Há 36 anos a usar ganga.
Do outro lado da rua, ao bando de jardim mais próximo da paragem de autocarro, está um menino de cabelo curto. Nas mãos "Tabacaria". Uma edição toda catita, com traduções em Inglês e Francês. O puto tem 12 anos. Ele nunca viu uma tabacaria. Só camiões cheios de gado. Autocarros da carreira velhos. Coisas que tresandam. Também ele tem dentro, todos os sonhos do mundo.
- A panleirice só tem uma cura. É a morte. - Insiste o homem vestido de ganga do outro lado da rua.
Fala para dentro da tasca aos gritos. Está a porta para poder fumar.
Agora não se pode fumar em lado nenhum mas toda a gente vai morrer de cancro.
Desço a rua sem traumas e não comprimento ninguém. Finjo que sou anónimo e tapo com a mão direita o umbigo. Dizem que o mau-olhado entra dentro de nós pelo umbigo. Dizem que essas coisas existem, e eu acredito.
Enquanto despejo o lixo no contento, ouço velhas assuntando:
- É o tempo deles vizinha - Diz uma velha coxa com as mamas muito grandes. Está debruçada sobre o muro baixo olhando de lado a companheira. Uma triste figurinha, baixa e magra que se vai esticando para alcançar o estendal. Só roupa preta e branca.
- Ai mas a da Lurdes ia mai bnita. Parecia um filme. Mesmo o rapaz ia muito composto - diz a velha que estende roupa.
- Esse na vi. O mê Jorge apanhou um bubederão temivle. Vemitou-se toda a manhã e eu tive lá a assistir-lo. Cuido que ele anda outra vez amantizado ca neta da Dulcina.
- Cristo. Ela tem um ar assim muito coiso - Franze o nariz e a testa como se tivesse a ficar enjoada - Só tatuaiges e aqueles brincos esquesites. Coisas que natraumente puxam à droga.
- Não - interrompe prontamente a outra velha - Ele não é dessas coisas. Gosta de beber o seu copito, mas eu até nem nunca o vi fumar.
Quando a tampa do contentor cai a conversa pára assustada. Na minha direcção os olhos da velhas, tentam conhecer-me. Identificar-me. Saber de quem sou eu?
Eu sou meu.
Viro costas e volto para casa tapando o umbigo. O banco da tabacaria estava vazio e a porta do café central também já exibia um silencio digno e sem ganga.
Nem todos deviam ser pais!
Todas as terras têm um café central e um banco dos velhos.
"Sítios de apodrecimento" diz o poeta de quadras de manjericos. Rasga-me um sorriso e um aperto de mão vigoroso.
- Então rapaz? Por cá?
A conversa salta trivialidades e desconfortantes perguntas. Apenas votos de boa sorte e convites para tertúlias noctívagas entre poetas e vinhos doces.
- Diz a menina para aparecer também. Adeus.
Digo que sim com a cabeça mas não sei se me apetece. Sinto-me longe de um sorriso. Estou quente e mole.
Subo a rua cheia de sol enquanto verifico o telemovél. Ainda é cedo. Não tenho nada para fazer, mas ainda é cedo para qualquer coisa.
Depois de fechar o portão remexo a caixa do correio. Amaroto a publicidade, conto as contas e fixo o momento num postal. Cheio de amor e como antigamente. Foi o carteiro regateiro que o trouxe. Leu-o de certeza, mas não importa. Um postal cheio de graça. Honesto e puro. De amor. De saudade. Sou meu mais uma vez e volto a ficar feliz. Talvez passe na casa do poeta de quadras para manjericos. Trocaremos versos e risos sem hora marcada. Sem hora de chegada.
Olho para o meu cão e digo-lhe em voz alta.
- Lá estás tu. Cheio de metafisicas.
Ele pensa.
Isso do amor é muito bonito mas já me levavas à rua.

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