Ontem fiz amor com uma vampira. Tenho a cama cheia de sangue!

'Tou com uma dor de costas terrível. Passo a explicar...
Eu vivo afastado da população. Praticamente no meio dos bichos. Osgas, sapos, ouriços... até galinhas. Espécies selvagens. De tudo um pouco é avistado nesta zona. Uma coisa que se encontra por aqui com alguma frequência são vampiros. Existem muitos ratinhos do campo, por vezes até uma cabra ou outra, e têm sempre reboques de tractores para descansar um pouco, quando o cansaço chega.
Os locais estão habituados à vampiragem. Toda a gente tem um crucifixo em casa e como à noite dá a telenovela, ninguém se cruza assim muito com os sugadores de sangue. Estes últimos também não morrem de amores pelos camponeses. Não gostam do cheiro. Muitos vampiros migraram para o campo vindos da cidade, e são um pouco snobs com os aldeões. "Viemos pela natureza, pela paz de espírito, pelo sossego, e estas bestas só querem eucalipto, milho transgénico e motos 4. E aquelas rosáceas... Vê-se bem que só bebem vinho de merda."
Eu estou um pouco no meio deste conflito. Consigo ir à tasca local sem precisar de tradutor - sempre tive facilidade com línguas estrangeiras - mas sinto falta do anonimato e da sofisticação. Sou citadino, nado e criado na capital, e frequentei as suas melhores instituições. Carrego estes pergaminhos e valores vitaliciamente. Orgulho-me disso. O meu exílio, prende-se com a deterioração da cidade mais linda do mundo - Lisboa - vitima da ganancia e da corrupção. A migração continuada e em massa, dos filhos dos novos ricos de província, também não tem ajudado. Os novos Lisboetas não percebem patavina da cidade e da sua história. Gostam do cenário e de brincar aos actores, mas nunca conseguirão escrever a peça. Dramaturgicamente falando. É uma tragédia. Agora longe, vivo o campo moderadamente.
Ontem à noite, enquanto passeava o cão, senti um arrepio gélido nas minha espinha. Como que por instinto, voltei-me para trás. Foi com surpresa que o meu olhar encontrou tão confiante e cativante sorriso.
- Olá. Boa noite. Já tinha ouvido falar de ti. És tu o que veio da cidade?
Assim que acabou, começou a caminhar, com deslizantes passos felinos, em direcção ao meu silêncio.
Completamente surpreso, fiquei perdido na sua figura. Hipnotizado por tão harmonioso rosto. O cabelo esvoaçante acabava com a minha reacção. Parecia que o vento tinha combinado com demónio. A sanidade estava derrotada. Só voltei a acordar quando ela insistiu:
- O que foi? O gato comeu-te a língua?
- Boa noite. Eu sou o Daniel. Prazer! - Pus o meu melhor sorriso e estiquei a mão, como se faz nos Estados Unidos.
Ela sorriu de volta e apertou-me a mão. Os dedos eram cuidados, finos. A pele, fria como pedra antiga.
- Eu sou a Inês. O prazer é meu. E ele, como se chama? - apontando para o meu companheiro.
- Ele é o Quentin... e se estivesse no teu lugar.. Tinha cuidado. Daqui a bocado ele pode tentar marcar-te.
- Mas como? Ele morde? - Fazendo uma festa na cabeça do animal.
- Não... mas de repente pode fazer xixi em cima da tua perna. Ele gosta de marcar tudo.
A gargalhada que ela foi contagiante. O som foi perfeito. Reparei então que escondia o sorriso. Como fazem as meninas envergonhadas. O cabelo avermelhado, tinha vida própria. Tudo nela era movimento. Tudo era ondulante e tudo se afastava do vulgar.
O resto foi charme e unhas.
Passeamos toda a noite. Falamos da cidade, das serras, da fraca qualidade da rede de telemóvel no local onde vivemos. Assumiu-se como vampira. Eu assumi-me como heterossexual. Contou-me que no tempo da monarquia, ser judeu era muito mais radical que andar de sk8. Que apesar dos seus 569 anos não teve muitos parceiros sexuais. É esquisita e demora a ficar "pronta". Diz ainda que:
- A maior parte dos homens vem-se depressa demais e não faz ideia de como funciona o corpo de uma mulher. Já nem falo da cabeça. Isso para vocês é um mistério idecifravel - reforçou sorrindo.
- És uma descrente nesse aspecto. Presumo que nem sempre seja fácil viver com tanto cepticismo. Alem de que te deves masturbar bastante - respondi.
Ela voltou a gargalhar, os olhos voltaram a brilhar e nós continuamos a conversa. A Inês é uma vampira sensual. Tem bom aspecto. Tem corpo. É boa, como dizem os trabalhadores do campo. A sua figura é cheia de insinuantes curvas. Não é nada andrógena, sequer esbranquiçada, como aqueles vampiros adolescentes dos filmes de merda que andam ai. Aliás. Fartou-se de gozar com isso. "Mas que vampiro... dito macho...é que anda num Volvo para gaja? Alem de que, nós voamos. Eu daqui para casa vou voar. Não preciso de carro para nada". Ser vampiro deve ser fixe. A cultura geral dá para ganhar todos os concursos da tv. E sem ajudas. Pode-se ser extravagante, sem preconceitos. Contou-me que tem no quintal, uma floresta bonsai, onde vivem anões que apanha pelo país inteiro. Sempre que vai de férias, cá dentro, trás um anão da zona que visitou. "O mais giro é o meu Dádá. Veio do Gerês. É mesmo fofinho e meigo. Faz tudo o que lhe digo... Tenho outro minhoto, mas é ruim. Morde muito e quer sempre violar os animais das quintas vizinhas. Até tenho vergonha de contar isto. Um dias destes, o meu pai, O Rui Vampirão, para o acalmar, levou-o a uma casa de meninas. Não é que o doidinho queria entrar dentro da senhora... mas de cabeça. É de loucos."
Quando faltavam apenas três horas para o sol nascer perguntou-me:
- Tens estores no teu quarto?
- Tenho - respondi prontamente - Porquê não podes apanhar sol?
- Posso. Mas não gosto. Gosto de temperaturas amenas. É raro ir à praia. Mas adorava ir a tua casa...
O resto guardo para mim. Foi muito bom. Aconselho. Vampiras é do melhor. Antes de mais, não há doença que entre com elas. Não têm período, nem sentido de posse. Tudo rijinho mas com experiência. Flexíveis e energéticas. É preciso dar ao cabedal. O toque é um pouco frio, mas nada que não se aguente. O único senão é que engravidam com facilidade.
Mas agora com a nova lei, tudo se arranja.

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